segunda-feira, 18 de setembro de 2006

The Saddest Song I've Got

Darling are you feeling
The same thing that I'm seeing
The troubles of the day
Took my breath away
Took my breath away
Now you're no longer talking
And I'm no longer hearing
There's nothing left to say
Said it anyway
Said it anyway
And I want you not
I need you not
I'm dying
Cos this is the saddest song I've got
The saddest song I've got
Darling are you healing
From all the scars appearing
Don't it hurt a lot
Don't know how to stops
Don't know how it stops
Now there's no sense in seeing
The colours of the morning
Can't hold the clouds at bay
Chase them all away
Chase them all away
And I'm frozen still
Unspoken still
Heartbroken
Remembering something I forgot
Something I forgot


Annie Lennox

domingo, 17 de setembro de 2006

Try to make your life complete

Every day I write the list
Of reasons why I still believe they do exist
(a thousand beautiful things)
And even though it's hard to see
The glass is full and not half empty
(a thousand beautiful things)
So... light me up like the sun
To cool down with your rain
I never want to close my eyes again
Never close my eyes
Never close my eyes

I thank you for the air to breathe
The heart to beat
The eyes to see again
(a thousand beautiful things)
And all the things that's been and done
The battle's won
The good and bad in everyone
(this is mine to remember)
So ...
Here I go again
Singin' by your window
Pickin' up the pieces of what's left to find

The world was meant for you and me
To figure out our destiny
(a thousand beautiful things)
To live
To die
To breathe
To sleep
To try to make your life complete
(yes yes)
So ...
Light me up like the sun
To cool down with your rain
I never want to close my eyes again
Never close my eyes
never close my eyes ...
That is everything I have to say
(that's all I have to say)


A Thousand Beautiful Things, Annie Lennox

terça-feira, 8 de agosto de 2006

Ando tão à flor da pele
Que qualquer beijo de novela me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar flor na janela me faz morrer
Ando tão à flor da pele
Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele tem o fogo do juízo final
Um barco sem porto
Sem rumo sem vela
Cavalo sem cela
Um bicho solto um menino um bandido
Ás vezes me preservo
Noutras suicido


Zeca Baleiro

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Achou!
(Dante Ozzetti e Luiz Tatit)

Investir
É cultivar o amor
Se despir
É ativar

Resistir
É aturar o amor
Insistir
É saturar

Aderir
É estar com seu amor
Adorar
É superstar

Aplaudir
Até sentindo dor
É amar

Quem puder
Viver um grande amor
Verá

Consentir
É educar o amor
Seduzir
É cutucar

Amarei!
É conjugar o amor
Não amei!
É enxugar

Avançar
É conquistar o amor
Amansar
É como está

Como estou
Com muito amor pra dar
Eu dou!

Quem estiver
Atrás de um grande amor
Achou!

domingo, 25 de junho de 2006

A história passa e pode me levar

Cê sabe que as canções são todas feitas pra você
E vivo porque acredito nesse nosso doido amor

Não vê que tá errado,
TÁ ERRADO ME QUERER QUANDO CONVÉM

E se eu não estou enganado acho que você me ama também

O dia amanheceu chovendo e a saudade me contém
O céu já tá estrelado e tá cansado de zelar pelo meu bem
Vem logo que esse trem já tá na hora, tá na hora de partir
E eu já tô molhado, tô molhado de esperar você aqui

Amor eu gosto tanto, eu amo, amo tanto o seu olhar

Andei por esse mundo louco, doido, solto com sede de amar

Igual a um beija-flor, que beija flor, de flor em flor eu quis beijar

POR ISSO NÃO DEMORA
QUE A HISTÓRIA PASSA E PODE ME LEVAR

E EU NÃO QUERO IR,
não posso ir pra lado algum
enquanto não voltar
NÃO QUERO QUE ISSO AQUI DENTRO DE MIM
VÁ EMBORA E TOME OUTRO LUGAR

Talvez a vida mude e nossa estrada pode se cruzar
AMOR, MEU GRANDE AMOR...
Estou sentindo que está chegando a hora de dormir

Outro lugar, Milton Nascimento, Elder Costa

quinta-feira, 22 de junho de 2006

O título: Fôlego!

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro. (...)

O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! (...)

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa. (...)


A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.

Pertencer (trecho), Clarice Lispector

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Não é

podia ser lindo
mas não é
podia ser claro
podia ser brando

podia ser tranquilo
mas não é
podia ser dia de sol
podia ser chuva boa
podia ser arco-íris
podia ser brisa
mas não é

podia ser alegria
podia ser sonho bom

podia ser aquele domingo
aquela segunda-feira
feriado
mas não é

podia ser alado

podia ser uma escolha
podia ser diferente
podia ser a gente
mas não é

podia ser eu
podia ser Deus
podia ser tudo verdade
tudo mentira
podia ser tudo água
podia ser nada

podia ser a saída
a entrada
a despedida
a chegada
podia ser encerrada

a vida

mas não é

domingo, 11 de junho de 2006

eu posso morrer
de repente
você também
pode morrer
de repente

e o tempo perdido...
não volta

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Nem que seja uma outra versão...

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos
Tudo Novo de Novo, Moska
...

terça-feira, 30 de maio de 2006

Partida

Os dedos partiram o pão
O rosto tocou o chão
Chocou-se com o fim de tudo
O chão

Os dedos partiram a carne
O sangue pintou o corpo
Chocou-se com o fim de tudo
A dor

Os dedos partiram o amor
O silêncio incendiou cada dia inteiro
Chocou-se com a parede
A vida

Os dedos partiram a vida.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

At first I was afraid I was petrified
Kept thinkin' I could never live without you by my side
But then I spent so many nights
Thinkin' how you did me wrong
And I grew strong
...
Go on now, go walk out the door
Just turn around now
('cause) you're not welcome anymore

Weren't you the one who tried to hurt me with goodbye
Did I crumble
Did you think I'd lay down and die?

Oh no, not I.
I will survive
Oh as long as I know how to love I know I'll stay alive
I've got all my life to live,
I've got all my love to give and I'll survive,
I will survive.

It took all the strength I had not to fall apart
Kept trying' hard to mend the pieces of my broken heart,
And I spent oh so many nights
Just feeling sorry for myself.
I used to cry
But now I hold my head up high

And you see me... somebody new
I'm not that chained up little person still in love with you,
And so you feel like droppin' in
And just expect me to be free,

Now I'm savin' all my lovin' for someone who's lovin' me
"Odeio quem me rouba a solidão
sem verdadeiramente oferecer companhia."
Como tudo, só vale quando interessa.

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Life is pain

dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordo
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor
dordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordordor

quinta-feira, 18 de maio de 2006

a morta

um tiro
no escuro
ela morta
um silencio
um vazio conhecido
um silencio

sem acento
sem letra maiuscula
sem palavra

a sala fria
uma fresta
de lua
na madeira
do chao

o jornal
na televisao
a voz
de mulher
sozinha

a solidao
da janela
do sofa
da cama
da morta

a solidao conhecida
e nova

sexta-feira, 28 de abril de 2006

Escolha

Eu te amo como um colibri resistente
incansável beija-flor que sou
batedora renitente de asas
viciada no mel que me dás depois que atravesso o deserto.
Pingas na minha boca umas gotas poucas
do que nem é uma vacina.
Eu uma mulher, uma ave, uma menina…
Assim chacinas o meu tempo de eremita:
quebras a bengala onde me apoiei, rasgas minhas meias
as que vestiram meus pés
quando caminhei as areias.


Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto.

Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
pesco as gozadas
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias.

Eu te amo.
De todos os nossos montes
fico com as encostas
De todas as nossas indagações
fico com as respostas
De todas as nossas destilairias
fico com as alegrias
De todos os nossos natais
fico com as bonecas
De todos os nossos cardumes
as moquecas.

Elisa Lucinda

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Sabe dor ia

Eu queria te ensinar.
Mas eu também não sei.

Não sei o que estou fazendo.
Acho que pirei.

Queria voltar a ser eu.
Mas isso também não sei.

Não sei o que estou fazendo.
Acho que sonhei.

Querer, querer, eu quero.
Querida...

Não sei o que estou fazendo
da vida.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Frio

Esfriou nessa cidade.
Esfriou dentro de mim.
É frio de solidão, de vazio, de vento.
Esfriou nesse apartamento.

Esfriou a comida, a saída, os dias de sol.
Esfriou o meu olhar e a minha esperança.
Esfriou a criança que eu não quero que morra.
Esfriou.

Esfriou o navio que eu queria pegar.
Esfriou todo o andar, toda a avenida.
Abriu uma ferida difícil de sarar.
Quem foi que deixou machucar?

Esfriou o jantar, meu amor.
Esfriou.
Esfriou o carro e não quer mais ligar.
Esfriou o jantar.

Não tem fogo que aqueça.
Não tem cobertor.
Esqueça, meu amor.
Esqueça.

Não confunda o que eu digo.
Não é pra você.
Sou eu, meu amor.
Sou eu que preciso crescer.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Das coincidências absurdas da vida

Um ciclo. Um ciclo perfeito. É isso a vida. Um ciclo perfeito cheio de imperfeições. Acabo de viver uma coisa bem impressionante. Depois de muito tempo sem escrever, hoje tive vontade. Hoje tive vontade de vir aqui escrever uma música. Uma música que voltei a ouvir, depois de muito tempo sem ouví-la. Lembrei que já tinha escrito a mesma música aqui algum dia. Fui procurar, por curiosidade. Achei. Achei no dia 14 de abril de 2003. ACHEI NO DIA 14 DE ABRIL DE 2003. Chorei mais ainda.

Tem horas que bate uma tristeza tão grande
Que eu não sei o que fazer e nem pra onde ir
É tanta coisa que eu queria dizer
Mas não tem ninguém para ouvir

Então choro
Sem ninguém ver
Eu choro

Choro por tudo que a gente não teve
Por tudo que a gente realizou
Choro porque sei que ainda te amo
E você me amou... e ama
Choro por tudo se assim for preciso
Choro porque sei que ainda te quero
Choro por tudo e por tudo lhe digo
Te espero, te quero, te amo...

Eu choro, Fábio Jr.

...

segunda-feira, 6 de março de 2006

Estou ausente de tudo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Segunda-feira de carnaval
Passou em silêncio desta vez.
Infelizmente.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Cuidado com o que você deseja.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

I know it sounds funny but I just can't stand the pain...
É preciso comparar
(da série Recordar é Viver)

Eu deveria ter contado tudo a ela. Mamãe adora histórias. Não é tão ruim quando se pensa. Poderia ter sido pior. Pense em como acabou aquele rapaz que foi a Boston implantar um rim novo. Ficou famoso nas notícias mas acabou morrendo. Penso na Laika, a cadelinha espacial. Foi colocada dentro do Sputinik e enviada ao espaço. Ligaram fios no coração e no cérebro dela para observar seu estado. Não creio que ela se sentia bem. Girou lá em cima cinco meses até a comida dela acabar. Morreu de fome. É importante ter coisas assim para comparar. Penso naquela mulher que foi a Etiópia como missionária. Ela foi morta a pauladas no meio do sermão. Precisa-se sempre comparar. Penso no cara que foi ao cinema ver o filme "Tarzan na lagoa". Depois pendurou-se num fio de alta tensão e morreu na hora. Nunca se deve bancar o Tarzan. Eu deveria ter contado tudo enquanto ela tinha saúde. Histórias da vida. Mamãe gostava delas. Fazia coleção. É preciso ter alguma coisa para contar a ela. Gosto muito quando ela ri porque aí esquece os livros. Ela lê demais. Esse é o problema. É bom... faz com que pense em outras coisas. Acho que amo a Sickan tanto quanto a mamãe. Mamãe era fotógrafa, antes de adoecer. Tinha um atelier. Teve que parar. Poderia ter sido pior. É importante lembrar isso. Lembro-me do desastre sobre o qual li. Um trem chocou-se com um ônibus em Chyeksbo. Seis pessoas morreram, catorze ficaram feridas. Deve-se comparar. É preciso ter cuidado com os ônibus. Eu poderia estar naquele. Me dá pena quando penso na pobre cadela Laika. Maldade mandarem a coitada na astronave... sem comida o bastante. Ela teve de servir ao progresso do homem. Não pediu para ir. Eu deveria ter contato tudo a ela... enquanto ela gozava de boa saúde. Ela tem bom senso de humor. Sobre o cabelo verde do Manne, e a cuia voadora que o pai dele fez. Do Fransson no telhado e dos malucos daqui. Ela teria rido muito. Garanto. Realmente tenho tido sorte, comparado aos outros. É preciso comparar para sentir a distância entre as coisas, como a Laika. Ela deve ter visto as coisas em perspectivas. É importante manter certa distância. Penso no cara que tentou um recorde mundial saltando sobre ônibus numa motocicleta. Ele alinhou trinta e um ônibus. Tivesse deixado por trinta, ainda estaria vivo. Imagine, não bateu o recorde do mundo por um ônibus. O último. Bateu com a roda traseira nele. Penso naquele sujeito que atravessou o campo da praça de esportes. Um dardo atravessou o peito dele. Atravessou o peito dele. Ele deve ter ficado muito surpreso. É estranho como não consigo deixar de pensar na Laika. Eu não devia pensar tanto! O tempo cura as feridas, como diria a Sra Arvidsson. Ela diz muita coisa sábia. Aconselha a gente a esquecer. É importante comparar. Pense numa cachorra como a Laika. Eles sabiam desde o começo que ela não voltaria viva. Sabiam que ela ia morrer. Eles simplesmente a mataram.

Do filme Minha Vida de Cachorro

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Domingo de manhã

Triste conclusão a sua.
Tristíssima leitura a minha.
Tanta coisa boa para aprendermos juntas, e você prefere aprender a me abandonar.

Meu choro de saudade não tem nada de gostoso.
É doído, doído, doído.

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Mach Point

Fim de semana parece que é um tempo à parte.
É uma coisa entre vazios e vazia pos si só.
Esse "por si só" nem sei se existe.
Mas estou, literalmente, por mim só.
Acho que sempre estive, sempre estarei.
A cada momento desses de vida partida, isso fica tão claro.
A esperança vai indo embora e você se vê por si só.
A esperança acaba e você acaba um pouco também.
Apaga as fotos que podem ser apagadas.
Esconde as cartas que podem ser escondidas.
Esquece as lembranças que podem ser esquecidas.
Mas tudo isso é quase nada.
É nada.
Perto de tudo.
E aí você olha ao redor e está... por si só.
E não sabe, mais uma vez, para que serve isso.
Para que serve viver por si só.
Além de chato, é idiota, é mais inútil do que qualquer outra situação.

Nem no palco vale a pena viver por si só.
Porque depois que a platéia vai embora, para suas casas com seus pares, comentar a história que você contou, você não tem par, não tem com quem contar... Não tem casa.

Quando será que vou querer de novo?
E mudar o discurso?
E começar tudo outra vez?

E quando, depois, vou voltar para esse mesmo ponto?

Que ciclo besta, Meu Deus.
Chega, hein.
Já entendi como é.
E não tô mais a fim.

Quero dar W.O.
Pode ser?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

aquele dia

aquele dia, de novo, chega
te pega assim, meio pronta mas nunca pronta
você pensa que vai ser tudo bem, que é só ir passando o tempo
mas aí começa a lembrar do que já passou e vê que não é bem assim
é um saco
essa é que é a verdade
separação é um saco
desestrutura tudo, te derruba, te inferniza o pensamento
tem as coisas pra buscar, as fotos pra guardar
tem um monte de coisa pra guardar na gaveta
em quantas gavetas será que já te guardaram?
e você nem tem mais espaço nas suas gavetas
pra guardar toda essa gente que parte, tanta coisa partida, perdida, chorada...

aí vai seguindo a sua vidinha
fazendo o que tem pra fazer
arranjando o que nem tinha, pra se distrair
a noite demora a passar
a manhã demora a te dar ânimo
é um saco
vai lá, faz as suas obrigações, sai pra bater papo, volta
você sabe que é assim mesmo
você compartilha a sua dor com gente que te entende
que também está passando por isso
mas não tem jeito
pode fazer tudo
continua sendo um inferno

porque tem a parte boa de tudo o que passou
tem todas as lembranças felizes
as idéias juntas, os planos, as invenções
tem as músicas de vocês, os lugares, os amigos
tem os cheiros, os sons, até os silêncios
e você lembra do olhar
do sorriso
da risada
da voz baixa no seu ouvido
dos gemidos
dos sussuros
você lembra do esforço de todo dia
como valia!
você lembra da alegria do caminho
da sensação de felicidade ao estacionar o carro
você lembra que delícia era estar junto
contar tudo, ouvir, desejar, brincar, rir, gargalhar
você pensa que é um desperdício estar sofrendo quando tudo isso existe
existiu e existe

daí você tenta mudar de assunto,
deixar pra lá
mas ainda não dá
ainda é tudo muito presente
ainda é tudo que você ainda quer
ainda não tem graça outra coisa, nem outra pessoa, nem outra vida

você tentar pensar nas coisas chatas pra ver se se conforma
mas é um saco!
porque as coisas chatas existem em tudo, em todas as pessoas
e portanto as coisas chatas não te consolam nem um pouco
pra se livrar das coisas chatas, você sabe, só se matando

de repente você se distrai com alguma coisa e esquece um pouco
só um pouco

porque já já volta um som, uma sensação, um cheiro
uma saudade

então você resolve ir dormir porque não tem o que fazer
porque não há nada que você possa fazer
é assim, mesmo, como você sempre diz pros outros
é assim, vai fazer o quê?
vai conviver com isso de novo e um dia passa
um saco!
pode ser um grande erro
uma perda irreperável
mas a-vi-da-é-as-sim

um dia depois do outro
tudo igual
não sei pra quê

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

dois mil e seis

começou e eu nem percebi
já podia acabar, pra mim dá na mesma
é essa falta de sentido pra tudo
essa falta de tudo que eu nunca vou ter
é assim

14 de fevereiro é Valentines Day
e daí? primeiro não sou americana
depois, não tenho mais a funny valentine

funny funny funny

o mais engraçado é que o tempo passa e tudo continua igual
aqui está, de novo, essa menina, escrevendo nesse blog
e daí?

e no dia em que eu morrer?
isso vai ficar aqui até quando?
dois mil e seis
dois mil e sete
dois mil e doze
dois mil e vinte e sete
dois mil e vinte e nove
três mil?

depois que eu morrer, e daí?

fiz um teste outro dia
pra uma coisa legal
que se der certo será legal
que se desse certo seria legal
mas e daí?
quantas pessoas sofreriam menos nesse lugar só porque seria legal se eu passasse no teste? e quanto mudaria na minha vida se eu passasse no teste? e quanto mais eu seria feliz se eu passasse no teste? e quando as pessoas seriam menos miseráveis se eu passasse no teste? e quantas criancinhas chorariam menos de dor, de tristeza, de fome, de frio, de falta de tudo se eu passasse no teste? e o que isso mudaria depois que eu morrer? ainda sssim, eu queria, e seria legal. eu não tenho mesmo valor.

a menina que trabalha ao meu lado confia tanto em mim que até me comove. e eu confio nela. nos damos bem. e ela se preocupa comigo como se preocupa com a filha dela, que também gosta de mim sem nem me conhecer direito. a filha dela é uma criança, mas gosta de mim como se tivesse a minha idade. ou como se eu tivesse a dela - o mais provável. e essa moça que trabalha ao meu lado fala muito em jesus - em nome de jesus! jesus te ajude! jesus te proteja.

eu sei que ele me cuida. se existe, ele me cuida.
me vê, me cuida, me avisa... ele tenta.
eu ainda acho que ele existe, apesar de não saber mais pra quê.
eu gosto de acreditar que ele existe.
eu deixo de ser eu, aquela com quem sempre convivi, quando perco a fé.
nunca perdi a fé.
só largo ela às vezes, assim, por instantes.
mas depois me lembro de que sem ela sou alguém de quem não gosto.
e daí não perco mais.
quero gostar de mim.
senão vai ser um saco ficar aqui passando o tempo.

minha mestra também trabalha perto de mim
na minha frente exatamente
eu tento aprender com ela mas não sei se dá
de qualquer forma, é bom ter mestres
mesmo que só para tê-los.

como ter deus, só para tê-lo.

existem outras pessoas que eu queria ter, só para tê-las.

mas como eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo me quer bem... todo mundo é meu também. tô te querendo como ninguém. tô te querendo como deus quiser.

empty
again
and again
and again

maria fumaça
muito prazer, eu queria me sentar aqui bem ao seu lado.

Marco seni andatto e no ritorna piu

Volevo dirti solo che Sei sempre tu la mia allegria Che quando parli insieme a lei Diventa folle gelosia Per tutto quello che mi dai Anche quando non lo sai Questo io volevo dire a te Di come quando non ci sei Io mi perdo sempre un po' E poi mi accorgo che non so Più divertirmi senza te Invece quando stai con me Anche il grigio intorno a noi Si colora della vita che gli dai Com'è difficile Dire tutto questo a te Che d'amore non parli mai Non ne parli mai con me Forse perché Hai paura come me Di una risposta che Ancora tu non sai qual è

ciatrizes.

domingo, 25 de dezembro de 2005

papai noel
vê se você tem
a felicidade
pra você me dar

eu pensei que todo mundo
fosse filho de papai noel

já faz tempo que eu pedi
mas o meu papai noel não vem
com certeza já morreu
ou então felicidade é brinquedo que não tem
Da série "Recordar é viver"

Novembro de 2003

Que será?
Que será isso de dia, noite, luz, escuridão?
Que será?

Que será que me acorda, me faz dormir, me dá fome, me dá raiva, que será?
Que será isso de amar e desamar e nem saber se ama ou se desama de amar...?
Que será isso de se-querer e não se-poder? Não se-poder não porque não se-é-permitido - ainda que também não se-seja - mas não se-poder de não-se-conseguir, não-se-suportar, não-se-entender-mais... Que será?

Que será isso de sentir e não saber, e saber que sente mas não saber sentir?
Que será essa areia movediça?
Será desenho animado?
Ou será desenho desanimado? Borrão, sujeira, tinta preta... que será?

Que será isso que é à revelia das vontades?
Uma vontade contra a vontade. Uma desvontade de querer querer.
Mas que será que se quer? Que será esse querer sem saber querer?

Que será que é palco, que será que é vida, que será que é tempo?
Que será preciso pra precisar?
Que será preciso pra esperar?

Que será que falta? Ou que nunca vai completar?
Que será de tudo que não será?

Sera Sera Serador.

sábado, 24 de dezembro de 2005

Noite infeliz...
Noite infeliz...

Ó Senhor,
Deus de amor...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

Curtas

Passarinhas
Não há passarinho, ela disse.
Não há passarinho no ar.
De repente eles todos ficaram no chão.
A gente perdeu o olhar.
Caiu, se espatifou.
Não há passarinho.
Passou.

Saias
As pernas de fora
O vazio de dentro
A demora
As pernas de dentro
Indo embora
Agora

Cinco
Será que
em algum
continente
ela ainda vai
me amar?

Sono
Sonhei com você e acordei chorando.
Não te liguei,
passei a manhã pensando.
E me deu preguiça de ficar triste.

Pressa
Tanta coisa te interessa.
Mas eu, nem tanto assim.
Fim.

Isca
Ainda tento
te pescar.

Palco
Vazio.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

A carta

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
dementes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de ama-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

(Quero, Drummond)
(2004)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Billie, Madeleine and I
I'll look around
Until I've found someone
Who laughs like you
I know somewhere
Spring must fill the air
With sweetness just as rare
As the flower
That you gave me to wear
I look around
And when I've found someone
Who laughs like you
I'll know this love
I'm dreaming of
Won't be the old love
I always knew
(George Cory / Douglass Cross)
Sin amor, no hay nada

É sempre assim e a gente não cansa de tentar. Começa, alegra, entristece, acaba. Tem um monte de sofrimento até acostumar à ausência. Daí vira qualquer coisa, às vezes bem longe, às vezes médio, às vezes perto mas com alguma estranheza. Às vezes, nada.

É sempre assim o amor. E a gente não cansa. Afinal, o que é que sobra? Bom, tem a família, é verdade, as crianças, principalmente. Mas cada um tem o seu caminho. Estamos juntos mas não sempre, mas esse junto de que estou falando. E aí, o que sobra?

Nada.

Por isso que vai, começa, acaba, sofre... e depois a gente começa tudo de novo. Claro que é melhor não acabar. Mas acaba...

E ainda que eu fale todas as línguas e conheça toda a ciência, sem amor, eu não sou nada.

Então vamos lá. Começar tudo de novo...
Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra dançar
E então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
epois o dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

Chico Buarque e Vinicius de Moraes

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

O Porvir

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Adiamento, Álvaro de Campos

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Secret

Segredo: do Lat. secretu, s. m., - aquilo que se quer cuidadosamente ocultar ou se não deve dizer; aquilo que não está divulgado; mistério; o que se diz ao ouvido de alguém; confidência; discrição; lugar oculto; esconderijo; recesso; prisão rigorosa em que se está incomunicável; meio particular para se obter certo resultado; mola oculta ou jogo de movimentos para se abrir um cofre, etc.; a parte mais difícil de uma arte, ciência, etc.; sigilo a que estão obrigadas certas pessoas no exercício da sua profissão.

Há segredos que salvam e outros que matam. Há os que matam devagar e os que fulminam. Há os que são perdoados e os que não tem perdão. Há os inocentes e os cruéis. Há os necessários, talvez.

Hoje, assim, por acaso, abri o dicionário e caí lá: segredo. Estive, então, pensando sobre a palavra. E sobre o ato. Ato de segredar e o de guardar segredo. A conclusão a que cheguei não conto. Vou guardar para mim.

Será que a necessidade do segredo aparece quando alguma coisa está faltando? Uma emoção, uma distração, uma ilusão... Será que o segredo do outro deve ser mais bem guardado do que os próprios. Será que segredo de dois é segredo ainda?

Quem acredita que hoje, com a possibilidade de comunicação do jeito que está... quem acredita que ainda se guardem segredos? Guarda-se de uns, mas não de todos. Pensa-se que guarda-se de uns. Mas...

Cuidado.
Se tiver segredos, melhor não tê-los contados.
Melhor não tê-los escritos.
Mas, melhor mesmo é não tê-los.

Something's comin' over
something's comin' over
something's comin' over me
My baby's got a secret

domingo, 27 de novembro de 2005

Descobri Madeleine Peyroux.
My new friend.

Dance Me To The End Of Love
Madeleine Peyroux


Dance me to your beauty with a burning violin

Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Te ver e não te querer
É improvável, é impossível
Te ter e ter que esquecer
É insuportável, é dor incrível
É como mergulhar num rio e não se molhar / É como não morrer de frio no gelo polar / É ter o estômago vazio e não almoçar / É ver o céu se abrir no estilo e não se animar / É como esperar o prato e não salivar / Sentir apertar o sapato e não descalçar / É ver alguém feliz de fato sem alguém pra amar / É como procurar no mato estrela do mar / É como não sentir calor em Cuiabá / Ou como no Arpoador não ver o mar / É como não morrer de raiva com a política / Ignorar que a tarde vai vadia e mítica / É como ver televisão e não dormir / Ver um bichano pelo chão e não sorrir / É como não provar o nectar de um lindo amor / Depois que o coração detecta a mais fina flor
Te ver, Skank

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Ditadura

Não consigo mais
Por que sou obrigada a ficar aqui?

Não quero mais falar.
Não quero mais ouvir.
Não quero mais ter tempo pra nada.

Que tortura, meu Deus.

Deus?
Por favor.
Faz alguma coisa.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

É possível estar mal e pensar direito?

Uma das questões mais interessantes da psicologia das últimas décadas é a seguinte: em que medida o sofrimento psíquico de um sujeito deve ser relacionado com um defeito de sua percepção e de seu entendimento do mundo? Obviamente, a pergunta é relevante só quando o sofrimento é uma condição severa e duradoura.

Tomemos, por exemplo, a depressão, um estado patológico que, em princípio, não nos torna delirantes nem alucinados. "Ser" depressivo (diferentemente de "estar" deprimido) significa passar, ao longo da vida, por vários episódios de depressão profunda e sofrer de uma constante dificuldade em encontrar a vontade de viver.

Pois bem, será que ser depressivo implica (como causa ou como efeito) um erro de percepção e de pensamento? Qualquer terapeuta gostaria que fosse assim: bastaria corrigir o erro e, com isso, quem sabe a depressão fosse "curada". Se você é depressivo e enxerga o mundo como a brincadeira sádica de um deus maléfico, talvez você seja vítima dessa visão "errada". Ao corrigi-la com as palavras certas, a gente transformaria seu humor de vez, faria de você outra pessoa. Mas sobra a pergunta: será mesmo que, por você ser depressivo, sua percepção do mundo está errada?

Em 1979, foi publicada uma experiência (Abramson e Alloy, "Journal of Experimental Psychology", vol. 108, nº 4), na qual dois grupos de sujeitos (os deprimidos e os "saudáveis") deviam descobrir se suas ações tinham ou não alguma influência sobre uma lâmpada que, de fato, se acendia e se apagava ao acaso. Os não-deprimidos, apesar dos desacertos, concluíram que suas ações eram eficazes. Os deprimidos concluíram (corretamente) que suas ações não tinham eficácia nenhuma e que não havia como fazer a cabeça da maldita lâmpada.

Para alguns críticos, a experiência demonstrava apenas o pessimismo dos deprimidos. Mas resta que, no caso, a conclusão dos deprimidos foi certeira; portanto caberia salientar o extravagante otimismo que extraviou os não-deprimidos e constatar o realismo dos deprimidos. Aliás, a questão levantada pela experiência de 79 entrou para a história da psicologia como problema do "realismo depressivo" (há novas experiências publicadas no recente vol. 134 do "Journal of Experimental Psychology").

O interesse desse debate não é só clínico. Acaba de sair um livro imperdível, "Lincoln's Melancholy: How Depression Challenged a President and Fueled His Greatness" (A Melancolia de Lincoln: como a depressão desafiou um presidente e alimentou sua grandeza), de Joshua Wolf Shenk. Shenk se baseia nos relatos dos que foram próximos de Abraham Lincoln para confirmar que ele foi clinicamente deprimido durante a vida toda. Logo, o autor se pergunta se essa depressão grave e crônica constituiu um impedimento ou se, ao contrário, foi uma vantagem na conduta do presidente americano durante a Guerra de Secessão. Ora, Shenk argumenta de maneira convincente que a depressão de Lincoln foi responsável por suas qualidades de estadista.

A seguir, alguns exemplos:
1) A depressão clínica é sempre acompanhada por um intenso processo de pensamento: reavaliação contínua da realidade, dúvidas sobre a ação certa, exame constante de consciência e por aí vai. Esse processo leva o sujeito a um conhecimento especial das contradições de sua própria alma e da dos outros. Na vida pública, isso permite negociar sem desprezo pela parte adversa.

2) O deprimido que ultrapassa suas crises sem sucumbir tem, em regra, a coragem e a capacidade de encontrar motivações sem recorrer a grandes princípios (o que pediria um entusiasmo que é impossível na depressão). Lincoln, embora convencido de que a abolição da escravatura fosse moralmente correta, nunca invocou a certeza de que Deus estaria do seu lado, mas alegava (inclusive por escrito) que, quanto a Deus, cada lado podia considerá-lo seu aliado. É uma outra qualidade crucial para a vida pública, a não ser que a gente prefira entregar as rédeas do governo a iluminados e fundamentalistas.

3) A adversidade, para o deprimido, é, por assim dizer, natural (nada existe sem antagonismo). Deparar-se com oposição e derrota é, para ele, uma travessia normal. O resultado é a perse- verança.

Recentemente, uma psiquiatra (Kay Redfield Jamison, "Touched with Fire: Manic Depressive Illness and the Artistic Temperament", Tocados pelo Fogo: a doença maníaco-depressiva e o temperamento artístico) mostrou que uma cura apressada da depressão nos privaria de inúmeros talentos artísticos e literários. Shenk estende o mesmo princípio a uma figura política; ele mostra que, no caso de Lincoln, a depressão não foi "uma falha de caráter que desqualificaria a liderança de um sujeito". Longe de comprometer o pensamento e as decisões do presidente, ela foi o traço de caráter que fez dele o estadista lúcido e necessário num momento sombrio da história de seu país.

Em suma, muitas aventuras dolorosas da mente são partes da subjetividade de quem sofre e, às vezes, partes irrenunciáveis, cuja "cura" deixaria o mundo mais pobre e mais estúpido.


Contardo Calligaris, Ilustrada, Folha de S.Paulo, 29 de setembro de 2005

terça-feira, 18 de outubro de 2005

em quanto

eu me entrego
de novo
a isso que não sei o nome
mas que sabe o meu

mar não é
mas é sal
sol não é
mas é mal

vem de um bem que foi embora
e demora
demora
demora a passar

eu me entrego
de novo
a todo sofrimento
de todo o sentimento

é quase uma indecência
de tanta desvontade
saudade sempre é
saudade

eu me nego
a gastar a voz em vão
no chão
minhas palavras dormem

dorme comigo
dor
dor
dor

dorme e cansa
antes que eu canse
Essa Dor

É uma dor que mata.
Mata um tanto de mim que não volta.
Mata e volta pra matar de novo.

Como foi que eu deixei essa dor voltar?

É uma dor do corpo inteiro
Por dentro da cabeça
Por dentro lá de dentro
Por dentro.

E fora não sobra nada
Uma cara esforçada
Uma voz machucada
Nenhuma estrada.

Como foi que eu deixei?

Serve pra nada esse monte de estudo
Esse monte de escudo
Esse monte de espada
Serve pra nada esse tempo de vida
Tanto amor, serve nada.

Se acaba assim mesmo a alegria
Nem com todo o abraço
Nem com todo laço
Basta a ventania
Pedaço.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

New Play in LA

another break-up song
another break-up song
this one is mine
the most pathetic its kind
this one is for the girl who's left behind

another break-up song
you breath and sing alone
if you've heard this one before
love is there and then it's gone

(...)
she is moving on

and I'm still flipping in this fresh war

(...)
the door has been opened
you don't just shut it
you simply walk away
something is always gonna stay

(a try to write down) Another Break-up Song, from Lori Scarlett
in The Break-up Notebook


"On stage at the Center gala, while we all held in our tummies beneath our body shapers and enjoyed our traditional formal gala dinner of chicken and wild rice, we were treated to a preview of the rock musical, The Break Up Notebook, adapted from playwright Patricia Cotter's hilarious, poignant play about the emotional aftermath of a girl's divorce. When I saw the play two years ago, it struck a cord with me as I watched the leads, one played by Jane Lynch, known to most of us as the manipulative lawyer and seductress of pregnant Tina on The L Word, act out the histrionics, heartache and recovery following the two-and-a-half-year life cycle of a girl's relationship. The scenes were all too familiar to those in my own life, as I had just experienced my own romantic split, after two-and-a-half-years."

domingo, 16 de outubro de 2005

Vai, vê se me esquece
tira meu nome da lista de telefone
vai ver que o mundo anda tão bem
mesmo eu sem você
você sem ninguém
Eu vou por aí
vai se livra de mim
vai ver que é mesmo assim
Não tem nada de mágoa
o caminho da água também é cheio de pedras
E o rio não pára
mas não tem nada de rio, de água, de pedra
Não tem explicação
não tem nada não
Eu vou por aí
vai se livra de mim
vai ver que é mesmo assim
Eu vou seguir a luz dos faróis, que me lembram seus olhos
Vai ver que eles podem me ajudar a ver
que não há de ser nada
que não há de ser nada
Eu vou por aí, eu vou por aí
Pior de tudo é que a gente ainda vai se ver
ando em ruas que não sei o nome pra me perder
Pior de tudo é que a gente ainda vai se ver
ando em ruas que não sei o nome
pra me perder
Vê Se Me Esquece, Ana Carolina
Voltou.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Uma idéia de morte.
Passou.
Pode voltar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

nada de novo

um vazio na cabeça
um universo pra percorrer
um espaço indefinido
e é tudo uma questão de tempo
mil vontades
mil faltas
mil coisas impossíveis
por enquanto
certas palavras que já não dizem nada
certos gestos que já não existem
certos erros
que se repetem
quem vai?
quem vem?
quem fica parado?
quem?

é como não existir mais porque tanto faz. os poucos que lembram, lembram pouco. os outros morrem. os que vivem nem sabem pra quê. a não ser aqueles que têm filhos. ou, por outra, aquelas. para essas é claro. claro que eu digo é de luz. deram à luz. e então elas têm mais razão, sabe. eu não tenho. não terei. ás vezes penso: que pena. às vezes, que bom. afinal, para quê? ah, pra ter motivo do resto do tempo não vale. então nem quero mais tempo. não faço questão. cansei de fazer questão só. só que eu digo é de solidão mesmo. não de gente. gente há. mas de razão. não é que eu não tenha. é que não há. a não ser... bem... já falei sobre os filhos.

fora isso, estou rodeada de livros. muitos ainda me falta ler. mas mesmo que eu leia. e daí? talvez eu prefira não fazê-lo, não lê-lo, não pensá-lo, não nada. ainda não sei bem. só talvez.

fora isso, estou rodeada de tédio. muito me faltava fazer, mas já nem ligo. é que pouco importa, sabe. porque não se chega a lugar nenhum mesmo. é só uma questão de tempo. e de como ele passa. se bem, bem. se mal, chato.

então vá ao teatro.
vá ao cinema.
vá fazer o que é bom pra você.

eu sei lá.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Vai acabar! Corra!!

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Por Elise
Assisti a um dos espetáculos mais tocantes da minha vida. Por Elise.
Se tentasse dizer dele aqui, seria crime meu.
Grupo Espanca. Uh, e como espanca! Mas com uma delicadeza...
Delicadeza daquelas de que o mundo anda esquecido.
De tanta proteção... de tanto distanciamento... de tanto abacate.
Veja que eu até queria falar um pouco do que senti. Mas me dói.
Porque não sai o que eu sinto. Sai só o que as palavras dizem.
Mas é pouco. Tão pouco. Que é realmente criminoso tentar.

Cuidado com o que você planta no mundo.
Por Mim.

Nos vemos no Japão... se um dia a gente chegar lá.


Por Mim
Tenho pensado muito no TEMPO. Cheguei à conclusão de que é só o que existe, o Tempo. A vida é o Tempo. Afinal, o que é que se faz aqui? Passa-se o tempo. Nada mais. A diferença entre um é outro é COMO se passa esse tempo. Só. E não acho que se trata de uma questão de inteligência, de coragem, de sabedoria, ou de fé. Acho que a questão é simplesmente a CONDIÇÃO. Quem tem condição, passa de uns jeitos; quem não tem, de outro. Outro, sim. Só um. Quem não tem condição passa como dá. Às vezes até com alegria, é verdade. Mas custa a passar. Já quem tem oportunidades, passa melhor, bem melhor. Passa com entretenimento, momentos fantásticos, sensações sempre novas e ousadas. Ao mesmo tempo, podemos inverter tudo. Porque às vezes p tempo de quem tem muitas chances, passa tão ocupado em abrir mais chances, que nem se vê. E os outros curtem... mesmo que for com banho de chafaris e pelada na rua. Ah, sei lá. Só sei que a vida é simplesmente passar o tempo. Porque um dia acaba mesmo, pra todo mundo igual. E mesmo se tiver alguma coisa depois, e daí? Vai ser só mais um tempo pra passar. Não, não é uma visão pessimista de tudo. Muito pelo contrário. Depois que me dei conta disso, tenho tentado passar bons tempos enquanto tenho tempo... pra passar bem. Sem essa encheção que a vida quase obriga.
...

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Deus
(Clarice)

Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte?
Mesmo para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude.
Neste mesmo instante estou pedindo que Deus me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. E estou precisando da minha própria força. Sou forte mas também sou destrutiva. Autodestrutiva. E quem é autodestrutivo também destrói os outros. Estou ferindo muita gente. E Deus tem que vir a mim, já que eu não tenho ido a Ele. Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Ou talvez os que menos merecem precisem mais. Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer: nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que Deus venha. Venha antes que seja tarde demais.
De repente
Não mais que de repente
A música ficou triste

Que presentes te daria
Uma estrela vã do firmamento
Pra iluminar o vão do pensamento
Pra iluminar o vão do pensamento

Uma TV na garantia
Árvores plantadas no cimento
E o meu perfume na rosa dos ventos
E o meu perfume na rosa dos ventos
E o meu perfume na rosa dos ventos

Um novo ritmo
Cartas de amor com frente e verso
E meu percurso nesse universo
E meu percurso nesse universo
E meu percurso nesse universo

Nas horas sem fim
Em que a dor não tem mais cabimento
É no teu prumo que eu me oriento
É no teu prumo que eu me oriento
É no teu prumo que eu me oriento

Catedrais de alvenaria
Senhas pra não mais perder a vez
Casa, comida e um milhão por mês
Casa, comida e um milhão por mês
Casa, comida e um milhão por mês

domingo, 11 de setembro de 2005

Meu despertador é o rádio. Estava programado para tocar às 8h. Deixo sempre na CBN. Porque jornalista é assim, meio viciado, e precisa acordar já sabendo o que está acontecendo no mundo. E quando a CBN começou a falar na minha cabeça, o que estava acontecendo no mundo era história. HISTÓRIA.

A primeira notícia era de acidente. Avião bate em uma das torres do World Trade Center em Nova York. Sempre enrolo uma meia hora antes de levantar. Naquela manhã, levantei imediatamente com aquela notícia entrando na minha cabeça acordando, corri pra sala, liguei a tv. O Nascimento já estava lá, ao vivo - como ficaria por mais nove hores ininterruptas. E aquele prédio pegando fogo. De repente: outro avião bate em outra torre, e confirma-se: terrorismo. Bate desesperadamente na porta do quanto dos meus pais, coisa que só faço em situações ímpares. Aquela era, definitivamente A situação ímpar. "Mãe, pelo amor de Deus vem ver isso porque eu não posso ver sozinha". Ela veio. E viu a terrível História sendo feita diante dos nossos olhos descrentes. Corri, me troquei, fui pra tv em tempo recorde. Entrei em disparada e parecia que o tempo tinha congelado. Estava tudo irreconhecível, desde a entrada, até as escadas e a redação. Parecia que ninguém sabia pra onde ir, a quem recorrer em busca de notícias. Ninguém acreditava naquilo. Nós, que vivíamos de notícias, não acreditávamos naquilo. De repente: uma das torres começa a desabafar. O silêncio naquela redação foi uma das coisas mais ensurdecedoras e perturbadoras que já presenciei. O Nascimento, entre palavras solteiras, mudo também, sem ar. Choros disfarçados completavam o silêncio chocante. Aos poucos, alguém ameaçava um movimento ou esboçava uma atitude... e outro silêncio. Outra torre desabando. Definitivamente não dava pra não chorar... de nervoso, de tristeza, de choque, de silêncio.

Por mais que eu tenha as palavras e que consiga impregnar meus sentimentos nesse texto, não posso descrever o que se passou naquela redação naquele 11 de setembro. Como em tantas situações, só quem estava lá sabe o que vivemos, ali, no meio de gente que ajuda a fazer alguns dos maiores telejornais do planeta, e que nunca tinha visto nada como aquela tragédia. Os olhares se cruzavam mudos, perplexos, incapazes de palavra, mas cheios das mesmas emoções e das mesmas perguntas. Aquele silêncio, meu Deus, eu nunca vou esquecer. A gente sabia, ah, sabia, que estávamos presenciando, de dentro da notícia, um dos maiores e mais tristes acontecimentos da história do mundo. E até hoje, nada chegou perto do que foi aquela manhã e os dias que se seguiram. Estar numa redação de jornalismo naquele dia foi uma das coisas mais indescritíveis que já vivenciei.

Ninguém conseguia ir embora da redação. Porque parecia que ali, onde a notícia chega primeiro, estávamos mais dentro, mais presentes... fazíamos mais parte de tudo. Eu fiquei lá até quase raiar o dia seguinte. E ainda não acreditava. Aquele silêncio não saía da minha cabeça e dos meus ouvidos. Até hoje quando lembro, páro por um instante, como se o relógio atrasasse sempre naquele segundo do silêncio.

À parte a tristeza diante de tudo, foi incrível. Uma emoção INCRÍVEL naquela redação.

E o silêncio permanece...

segunda-feira, 22 de agosto de 2005

Milágrimas

em caso de dor ponha gelo mude o corte de cabelo mude como modelo vá ao cinema dê um sorriso ainda que amarelo esqueça seu cotovelo se amargo foi já ter sido troque já esse vestido troque o padrão do tecido saia do sério deixe os critérios siga todos os sentidos faça fazer sentido

a cada mil lágrimas sai um milagre

em caso de tristeza vire a mesa coma só a sobremesa coma somente a cereja jogue para cima faça cena cante as rimas de um poema sofra penas viva apenas sendo só fissura ou loucura quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura faça uma novena reze o terço caia fora do contexto invente seu endereço

a cada mil lágrimas sai um milagre

mas se apesar de banal chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal sinta o gosto do sal gota a gota, uma a uma duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre

a cada mil lágrimas sai um milagre a cada mil lágrimas...

[Mil lágrimas, Itamar Assumpção e Alice Ruiz]

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

LUZES

Teus olhos, meu amor, minha luz.
Esses dias em que não te vejo, não passam, não existem.
Teus olhos, ah que dia escuro sem te ver.

Como posso te amar tanto sem te ver?
E te ver e te amar mais?
Teus olhos.

Pensei em escrever um pouco pra hora passar logo, que quando estou sem você não quero o tempo. Quero tudo, meu amor. Quero a vida ao seu lado. Que mesmo metade é tanto. Metade de mim é o que sou , a outra metade é nós. A metade que não pode te ter, eu temo, perder. A metade outra será... tudo.

Clarice nova que você me deu ocupa as noites até o dia e o seu bom dia.

A menina não dorme porque não tem sono. E existe qualquer outra razão para não dormir? Não é preocupação, nem angústia, nem ansiedade, nem medo, nem falta de amor - é falta de sono, ué. Senão ela teria dor de cabeça, mas dormiria. Acordaria procupada, mas dormiria. Teria pesadelos, mas dormiria. Se não dorme, é porque sono não há. Mas dinheiro há, doutor, dinheiro há! E quem disse que o sono se compra? Até amor se compra. Mas sono? Como é que faz? De noite na cama, eu fico pensando, se você me ama, e quando. Alô, telefonista, me ligue com o Nelson, por favor. Vamos montar aí um textinho que ele escreveu e eu não entendi um negócio. Afinal, quem é a Luci?? Luci in the sky with diamonds. De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar, se você não dorme de noite? Ai, ai, ai. Isso não vai acabar bem. O caso é que...

Senhores, o nosso tempo acabou. Por favor, depositem seus votos na urna e permaneçam em silêncio. Por que, afinal, o voto é obrigatório? Se nem dormir é obrigatório, por que votar é? Se dormir a gente quer e não pode... vê-se lá que incoerência. Votar que um monte de gente não quer... tem que.

Clarice, por favor, atenda. Alô? Como vai, querida? Bem, eu sei que devo estar incomodando seu sono eterno, mas o caso é que... eu... não durmo. E... bem, desculpe, mas você tem um pouco de culpa, sim, porque escreveu tanto... e... eu... leio. Assim, sabe, vou lendo. E não durmo mais. Bem, eu gostaria que você viesse aqui, me contar umas histórias. Novas, de preferência, mas se não for, tudo bem. A luz aqui é fraca, mas me avise um dia antes e mando dar um jeito. Oh, obrigada, e traga seu chapéu de palha, bem, há pernilongos e não quero importunar seu sono. Já o meu... não há. Não, não há. O que há é um vácuo na escuridão. Obrigada. Até logo.

Bom dia. Nove e meia? Oh, posso dormir mais meia hora. Se preciso estar lá às onze, preciso sair às dez vinte, portanto tenho que acordar às nove e cinquenta, no máximo. Oh, posso dormir mais vint... zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

Às vezes a gente tem mil cérebros.
E Joana Careca, uma coisa a menos na cabeça para se preocupar.
...