casa III
é o palco, você sabe como. entrar em cena. e milhares de estrelas no céu. e os tons de luz que só a gente conhece. o chão de madeira e os sons de cada passo, da pisada forte, de alguma queda. é o escuro e a expectativa. são os olhos ao redor do que pode ser uma vida inteira. em instantes. são aqueles minutos e o calor de um sol ausente. é o presente de cada noite em silêncios e partidas rápidas. é a platéia que me trouxe uma visão. mas pisquei os olhos e se foi. é o dia seguinte se a exaustão for muita, se a gratidão for breve, se restarem sentimentos por trás da cortina. é quando aquilo tudo faz sentido simplesmente por ser. um monte de gente que sorri, se formos de sorrisos. um monte de gente que vê. gente que diz mais oi do que tchau. mas que volta e que acredita. é a arena. encena, mente, se engana e desiste. ou então descobre que ainda pode ser. e convence. esquece o texto, improvisa, sem avisar ninguém. me surpreende, pelo amor de deus. são os meus sonhos e os seus. mãe, pai, zeus. é o palco. você sabe como. rostos conhecidos e abraços guardados. a mesma lembrança em todos os toques. o mesmo desejo em todos os olhos. a mesma falta. o ingresso não dado. uma porta abre, alguém sai. alguém entra. tem o chão, tem os pés descalços, tem os dedos firmes nas coxas e na cintura. as curvas que vieram depois da dor. é o amor. esse que de todos persiste. me fala da tua estrada, da tua estada, do que não tem fim. é depois da saída, a comida. as ruas, minhas e propícias. mas hoje sou outra, ontem sou nova, amanhã saberei. é a páscoa. oca. nascente. sempre, você sabe como. nós entre três paredes.
domingo, 23 de março de 2008
sábado, 22 de março de 2008
casa II
crianças, camarão, expedição, cócegas. aniversário, livros, vinho, viagem. portugal, espanha, frança, itália, inglaterra, holanda, alemanha, república tcheca, hungria, áustria. davi, golias. galão, gelo. dois cafés. marília, chefe, padeiro, queijo brie, marcela, gustavo, irmã, pasta&vino, fondue, frigideira. teatro, porto alegre, chapéu, marco, bia, institucional, preço, amizade, roteiro, problema. mau jeito, daniela, doente, imaginação. sol, vinhedo, tucson, mariângela, suze, cristiane, patrícia, picanha, vanilla, psicologia, terapia, mãe, relação estável, piscina, risada, yoshi, veridiana, gilmore girls. gota, platéia lotada, jantar, queijo, prosecco, mico leão dourado, pares, casa nova, vila, vilões, prima, diretor, salada, salmão, namorado, chocolate, páscoa. big brother, tia penha, mirian, margarida, mirtes, neide, seu zé. heroes, lost, tecnologia, ignorância, fé. amandita, amendoim, m&m. minha turma, aprendizado, ego, currículo, brilho, saudade. sete em vez de oito. lugar na mesa. lugar na casa. lugar dentro. sono, distanciamento, tristeza, lamento. madrugada, carisma, empatia, coragem, covardia, português. opções, dicção, convite, convicção. surreal, inesperado, incrível, inacreditável, possível. determinação, ousadia, sucesso. desgraça, humor, choro, risada, dor, alegria. simplicidade, caminho, livraria, farmácia, silêncio, súbito amor. tempo, falta, escolha, constatação. roupa lavada, televisão, apple, wi-fi, água. sem fio, sem mágoa. fotos, justificativas, culpas, prisões. refém, carrasco, idolatria, realidade. surpresa, ilusão. todos juntos. passado existente. o banco vazio ao meu lado. espera.
crianças, camarão, expedição, cócegas. aniversário, livros, vinho, viagem. portugal, espanha, frança, itália, inglaterra, holanda, alemanha, república tcheca, hungria, áustria. davi, golias. galão, gelo. dois cafés. marília, chefe, padeiro, queijo brie, marcela, gustavo, irmã, pasta&vino, fondue, frigideira. teatro, porto alegre, chapéu, marco, bia, institucional, preço, amizade, roteiro, problema. mau jeito, daniela, doente, imaginação. sol, vinhedo, tucson, mariângela, suze, cristiane, patrícia, picanha, vanilla, psicologia, terapia, mãe, relação estável, piscina, risada, yoshi, veridiana, gilmore girls. gota, platéia lotada, jantar, queijo, prosecco, mico leão dourado, pares, casa nova, vila, vilões, prima, diretor, salada, salmão, namorado, chocolate, páscoa. big brother, tia penha, mirian, margarida, mirtes, neide, seu zé. heroes, lost, tecnologia, ignorância, fé. amandita, amendoim, m&m. minha turma, aprendizado, ego, currículo, brilho, saudade. sete em vez de oito. lugar na mesa. lugar na casa. lugar dentro. sono, distanciamento, tristeza, lamento. madrugada, carisma, empatia, coragem, covardia, português. opções, dicção, convite, convicção. surreal, inesperado, incrível, inacreditável, possível. determinação, ousadia, sucesso. desgraça, humor, choro, risada, dor, alegria. simplicidade, caminho, livraria, farmácia, silêncio, súbito amor. tempo, falta, escolha, constatação. roupa lavada, televisão, apple, wi-fi, água. sem fio, sem mágoa. fotos, justificativas, culpas, prisões. refém, carrasco, idolatria, realidade. surpresa, ilusão. todos juntos. passado existente. o banco vazio ao meu lado. espera.
quarta-feira, 19 de março de 2008
casa
às vezes é uma palavra, às vezes um olhar, um sorriso, uma cena, um carinho. às vezes é uma criança que corre, um barulho, um perfume, um cheiro. ou um som, um jeito do vento soprar, um clima, uma decoração. às vezes é uma sensação, uma cor, um ímã de geladeira. pode ser uma roupa, uma saia, um sapato, uma foto na carteira, um ingresso de cinema. às vezes é uma sandália, um boné, uns óculos, um par de meias. um grupo de amigos, um guardador de carro, um lugar repetido, um bar, um restaurante, um prato, uma bebida. às vezes é só um detalhe, uma mancha, a pasta de dente, o sabonete, o shampoo, a base. é uma peça de teatro, um livro, uma conta, uma frase. e pode ser um quase. um monte. às vezes é o clube, a avenida, o farol, o caminho. às vezes é o vinho, o lápis de olho, o espelho, o despertador do celular. é o lugar na cama, o travesseiro, o silêncio, o jeito de acordar. é a insônia, a estrada, o lago, o luar. às vezes é uma carta, um bilhete, o chocolate, a regata, o copo, a comida que sobra. é uma manobra, uma freada, o trânsito, a madrugada. é às vezes uma expectativa, uma esperança, uma lembrança, é a vontade de esquecer. é até um prazer. é um chinelo, um brinde, um brinco, um colar, um macaco, um caderno, uma caixa, um guia, um diário, uma voz. às vezes somos nós. às vezes é o portão, a chave, o chaveiro, o porta-retrato, o mural. às vezes é o www.euteamo.final, e às vezes nem faz mal. é também um garçon, uma garçonete, o confete, o brigadeiro, o seriado, o feriado, o sábado, o domingo, a semana inteira, a feira, o pastel, o rádio. é o remédio, o tédio. às vezes é o quintal. às vezes são os outros, às vezes, o avião. às vezes é a risada, é um jeito de andar, a altura, o formato, o ar. e pode ser a certeza, a tristeza, a ficção, o roteiro, o teste, o sono da manhã, a despedida, o bom dia, a recaída, a função, o não, o colchão. às vezes é a maternidade, a idade, é impressão. às vezes é o armário, a gaveta, a estante, a televisão, o supermercado, o hotel, as ruas, o sol, a preguiça. às vezes é o mundo inteiro. às vezes é o último, às vezes o primeiro. às vezes, quase sempre, é só você.
às vezes é uma palavra, às vezes um olhar, um sorriso, uma cena, um carinho. às vezes é uma criança que corre, um barulho, um perfume, um cheiro. ou um som, um jeito do vento soprar, um clima, uma decoração. às vezes é uma sensação, uma cor, um ímã de geladeira. pode ser uma roupa, uma saia, um sapato, uma foto na carteira, um ingresso de cinema. às vezes é uma sandália, um boné, uns óculos, um par de meias. um grupo de amigos, um guardador de carro, um lugar repetido, um bar, um restaurante, um prato, uma bebida. às vezes é só um detalhe, uma mancha, a pasta de dente, o sabonete, o shampoo, a base. é uma peça de teatro, um livro, uma conta, uma frase. e pode ser um quase. um monte. às vezes é o clube, a avenida, o farol, o caminho. às vezes é o vinho, o lápis de olho, o espelho, o despertador do celular. é o lugar na cama, o travesseiro, o silêncio, o jeito de acordar. é a insônia, a estrada, o lago, o luar. às vezes é uma carta, um bilhete, o chocolate, a regata, o copo, a comida que sobra. é uma manobra, uma freada, o trânsito, a madrugada. é às vezes uma expectativa, uma esperança, uma lembrança, é a vontade de esquecer. é até um prazer. é um chinelo, um brinde, um brinco, um colar, um macaco, um caderno, uma caixa, um guia, um diário, uma voz. às vezes somos nós. às vezes é o portão, a chave, o chaveiro, o porta-retrato, o mural. às vezes é o www.euteamo.final, e às vezes nem faz mal. é também um garçon, uma garçonete, o confete, o brigadeiro, o seriado, o feriado, o sábado, o domingo, a semana inteira, a feira, o pastel, o rádio. é o remédio, o tédio. às vezes é o quintal. às vezes são os outros, às vezes, o avião. às vezes é a risada, é um jeito de andar, a altura, o formato, o ar. e pode ser a certeza, a tristeza, a ficção, o roteiro, o teste, o sono da manhã, a despedida, o bom dia, a recaída, a função, o não, o colchão. às vezes é a maternidade, a idade, é impressão. às vezes é o armário, a gaveta, a estante, a televisão, o supermercado, o hotel, as ruas, o sol, a preguiça. às vezes é o mundo inteiro. às vezes é o último, às vezes o primeiro. às vezes, quase sempre, é só você.
terça-feira, 18 de março de 2008
no céu
mergulhei
se é você, eu fui
no teu tempo eu me jogo
no teu ar
no teu tecido eu me enrosco
no teu mar
não tremo mais
não temo mais
se você chega
se vai
se você voa
se cai
eu te pego
eu não te largo mais
é toda noite antes de dormir
o calor do fogo com asas
é todo dia, juro, essa euforia
o amor acrobata
jura
juro
e pra que prometer se depende do vento
depende da firmeza das mãos
depende das pernas e da confiança
e se é você, mergulhei
mergulhei
se é você, eu fui
no teu tempo eu me jogo
no teu ar
no teu tecido eu me enrosco
no teu mar
não tremo mais
não temo mais
se você chega
se vai
se você voa
se cai
eu te pego
eu não te largo mais
é toda noite antes de dormir
o calor do fogo com asas
é todo dia, juro, essa euforia
o amor acrobata
jura
juro
e pra que prometer se depende do vento
depende da firmeza das mãos
depende das pernas e da confiança
e se é você, mergulhei
long time, no hug
waiting on an angel
one to carry me home
hope you come to see me soon
cause i don' t want to go alone
i don' t want to go alone
now angel won' t you come by me
angel hear my plea
take my hand
lift me up so that i can fly with thee
so that i can fly with thee
and i'm waiting on an angel
and i know it won' t be long
to find myself a resting place
in my angel's arms
in my angel's arms
so speak kind to a stranger
cause you'll never know
it just might be an angel come
knockin' at your door
knockin' at your door
waiting on an angel
one to carry me home
hope you come and see me soon
cause i don' t want to go alone
waiting on an angel, Ben Harper
waiting on an angel
one to carry me home
hope you come to see me soon
cause i don' t want to go alone
i don' t want to go alone
now angel won' t you come by me
angel hear my plea
take my hand
lift me up so that i can fly with thee
so that i can fly with thee
and i'm waiting on an angel
and i know it won' t be long
to find myself a resting place
in my angel's arms
in my angel's arms
so speak kind to a stranger
cause you'll never know
it just might be an angel come
knockin' at your door
knockin' at your door
waiting on an angel
one to carry me home
hope you come and see me soon
cause i don' t want to go alone
waiting on an angel, Ben Harper
segunda-feira, 17 de março de 2008
de livros, de tristezas, de partidas e reencontros, de paixão, de amor
"Não sou mais um escritor. Estou cego. Para escrever, preciso ver. Não leio, não consigo escrever também. Sou um ex-escritor. A literatura perdeu completamente o sentido para mim. Não me lembro mais de nenhum poema meu."
João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
Por ele, leiamos. Inesgotavelmente. Por amor.
Simone e Jean Paul partem, vivendo ainda e para sempre comigo.
As Avós me roubam uma madrugada insone e deixam muitas outras por pensar, em nós.
Volta à minha casa a morte, desta vez decidida a me contar tudo. Tudo sobre a menina que Correu o dorso da mão pela primeira prateleira, ouvindo o arrastar de suas unhas deslizar pela espinha dorsal de cada livro. Soava como um instrumento, ou como as notas de pés em correria. Ela usou as duas mãos. Passou-as correndo. Uma estante encostada à outra. E riu. Sua voz se espalhava, aguçada na garganta, e quando ela enfim parou e ficou postada no meio do cômodo, passou vários minutos olhando das estantes para os dedos, e de novo para as prateleiras. Em quantos livros tinha tocado? Quantos havia sentido? Andou até o começo e fez tudo de novo, dessa vez muito mais devagar, com a mão virada para frente, deixando a palma sentir o pequeno obstáculo de cada livro. Parecia magia, parecia beleza, enquanto as linhas vivas de luz brilhavam de um lustre. Em vários momentos, Liesel quase puxou um título do lugar, mas não se atreveu a perturbá-los. Eram perfeitos demais. A roubadora de livros, que está me enlouquecendo de amor. Não sei como pude deixá-la um dia. Mas amores que não acabam, acabam voltando para casa.
Tenho ainda já em meus braços e aos pedaços em mim as Histórias para ler sem pressa.
E Rufo, em meu melhor abraço, que não me larga até que eu aprenda sobre os laços, todos.
Não sei até quando terei olhos.
Ou paz.
PS: mas te ver, assim, todo dia é a melhor das histórias que tenho por contar. por amor.
"Não sou mais um escritor. Estou cego. Para escrever, preciso ver. Não leio, não consigo escrever também. Sou um ex-escritor. A literatura perdeu completamente o sentido para mim. Não me lembro mais de nenhum poema meu."
João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
Por ele, leiamos. Inesgotavelmente. Por amor.
Simone e Jean Paul partem, vivendo ainda e para sempre comigo.
As Avós me roubam uma madrugada insone e deixam muitas outras por pensar, em nós.
Volta à minha casa a morte, desta vez decidida a me contar tudo. Tudo sobre a menina que Correu o dorso da mão pela primeira prateleira, ouvindo o arrastar de suas unhas deslizar pela espinha dorsal de cada livro. Soava como um instrumento, ou como as notas de pés em correria. Ela usou as duas mãos. Passou-as correndo. Uma estante encostada à outra. E riu. Sua voz se espalhava, aguçada na garganta, e quando ela enfim parou e ficou postada no meio do cômodo, passou vários minutos olhando das estantes para os dedos, e de novo para as prateleiras. Em quantos livros tinha tocado? Quantos havia sentido? Andou até o começo e fez tudo de novo, dessa vez muito mais devagar, com a mão virada para frente, deixando a palma sentir o pequeno obstáculo de cada livro. Parecia magia, parecia beleza, enquanto as linhas vivas de luz brilhavam de um lustre. Em vários momentos, Liesel quase puxou um título do lugar, mas não se atreveu a perturbá-los. Eram perfeitos demais. A roubadora de livros, que está me enlouquecendo de amor. Não sei como pude deixá-la um dia. Mas amores que não acabam, acabam voltando para casa.
Tenho ainda já em meus braços e aos pedaços em mim as Histórias para ler sem pressa.
E Rufo, em meu melhor abraço, que não me larga até que eu aprenda sobre os laços, todos.
Não sei até quando terei olhos.
Ou paz.
PS: mas te ver, assim, todo dia é a melhor das histórias que tenho por contar. por amor.
domingo, 16 de março de 2008
sábado, 15 de março de 2008
de graça
eu te olho e lembro
que a vida tem graça
eu te olho e lembro que a vida tem graça
por causa de cada história
de cada pessoa
por causa de cada história de cada pessoa
por causa da história da gente
tão linda e tão cheia de graça
tão cheia de gente
tão cheia de histórias engraçadas
eu te olho e me lembro da beleza e da graça de tudo da gente
e de cada pessoa
e de cada história
é engraçado como não há mais história sem você estar
sem eu te olhar e lembrar
como é sem graça sem você
mesmo entre tantas pessoas com tantas histórias e tantas graças
(mesmo entre tantos olhares)
eu te olho e lembro
que a vida tem graça
eu te olho e lembro que a vida tem graça
por causa de cada história
de cada pessoa
por causa de cada história de cada pessoa
por causa da história da gente
tão linda e tão cheia de graça
tão cheia de gente
tão cheia de histórias engraçadas
eu te olho e me lembro da beleza e da graça de tudo da gente
e de cada pessoa
e de cada história
é engraçado como não há mais história sem você estar
sem eu te olhar e lembrar
como é sem graça sem você
mesmo entre tantas pessoas com tantas histórias e tantas graças
(mesmo entre tantos olhares)
quinta-feira, 13 de março de 2008
frente
aderiu à sua solidão com o fervor de um jovem monge.
Nas horas vagas, dava grandes caminhadas.
.
Não posso descrever o que era estar presente quando aqueles dois estavam juntos.
Era tão intenso que às vezes deixava quem via triste por não ter aquilo.
.
Quero que saiba que não há uma de suas expressões faciais, um de seus sentimentos e um incidente de sua vida com que eu não me importe. Pode estar certa de que, quando você se senta para comer, há alguém que estaria interessadíssimo em saber que tipo de sopa está comendo. Naturalmente, esse alguém adoraria receber cartas longas e detalhadas.
.
Era imatura em muitos aspectos,
mas tinha uma capacidade incomum de ouvir e compreender.
.
É um descanso ter alguém que nos pertence por inteiro.
.
Poderia passar horas chorando que não acabaria de chorar.
.
O fato é que, de qualquer maneira, nunca senti de modo tão intenso que você sou eu.
.
"angústia nua causada pela ausência"
e o cansaço nervoso da manhã.
.
...não conheço nada mais linda nesse mundo que essa cara, e pensar que era para mim que ela era tão linda fazia com que eu me sentisse muito forte e tivesse uma grande humildade.
.
Sua verdadeira vida era ele. Ela vivia esperando por ele. "Tenho pesadelos constantes com você. Você volta mas já não me ama mais, e fico desesperada. Às vezes, não saber se vou tornar a vê-lo me deixa literalmente sem ar. Perscruto cada esquina à sua procura. Só vivo para a hora em que torne a pôr meus olhos em você."
.
nunca foi tão fácil para mim viver, embora eu seja sempre bem feliz
.
houve momentos em que a ansiedade chegava às raias da aberração mental.
.
Andei por todas as ruazinhas de que tanto gostamos, e eu queria tanto você que não aproveitei nada,
só tive vontade de chorar até morrer.
.
Quando se despediram, ela disse o quanto achara bom o fato de terem conseguido conservar a amizade. "Não é amizade. Eu nunca poderia lhe dar menos que amor."
.
De repente , ela era invadida por uma tempestade de emoção.
Quase sufocava de tanto soluçar. Era assustador.
.
Virou quase messiânica por uns tempos, com sonhos de entrar para o convento e converter os negros da África. Sempre seria meio mística. Amor, para ela, era adoração.
.
Hoje, mais uma vez, a vida me crava os dentes no coração.
.
Por que há algumas coisas que quero tanto dizer, perguntava a si mesma,
e outras que quero sepultar?
.
Detectava o mais tênue fingimento, a menor mentira, interpretava os silêncios, observava expressões faciais, analisava tudo com um pente-fino. Não fazia concessões, voltava a uma frase, exigia informações mais completas. Queria saber tudo ou nada.
.
É terrível não estar presente para consolar uma pessoa pela dor que você lhe causou ao deixá-la.
.
a angústia inevitável do vazio existencial.
.
Eu adorava seus entusiasmos e sua raiva, sua gravidade, sua alegria, seu horror ao lugar-comum, sua generosidade desinteressada.
.
É tão cansativo odiar quem se ama.
em Tête-à-Tête, Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre, de Hazel Rowley
domingo, 9 de março de 2008
grande
mas aí as crianças brincam, e sorriem, e te amam tanto...
e então você se lembra de que a desordem tem conserto.
e então você se esforça para deixar de ser pequena.
porque existe Anna.
e Ricardo.
e então?
você esquece, eu sei. não porque quer. simplesmente a cabeça esvazia. morada do demo, disse aquela senhora um dia. isso não esquece. nem de si, nem de lá, nem da cabeça. você sabe que a coisa é complicada. mas há tudo. e de repente tudo volta a aparecer. e de repente você volta a ver, a reparar, a se dar conta. ainda que vazia. a cabeça e o resto. porque essa gente tá aí. e você vê. e chora de uma coisa que não sabe, mas sente. o último prazer que ela tem na vida. não me tire. não lhe tire. tire da cabeça o que não serve. e conduz. tu. imperativo é de repente se lembrar de tudo. quantas vezes for preciso. e esquecer do que não serve. quantas vezes for preciso. quantas forem as vezes. precisas. esquecer é preciso. viver não é preciso.
e então?
mas aí as crianças brincam, e sorriem, e te amam tanto...
e então você se lembra de que a desordem tem conserto.
e então você se esforça para deixar de ser pequena.
porque existe Anna.
e Ricardo.
e então?
você esquece, eu sei. não porque quer. simplesmente a cabeça esvazia. morada do demo, disse aquela senhora um dia. isso não esquece. nem de si, nem de lá, nem da cabeça. você sabe que a coisa é complicada. mas há tudo. e de repente tudo volta a aparecer. e de repente você volta a ver, a reparar, a se dar conta. ainda que vazia. a cabeça e o resto. porque essa gente tá aí. e você vê. e chora de uma coisa que não sabe, mas sente. o último prazer que ela tem na vida. não me tire. não lhe tire. tire da cabeça o que não serve. e conduz. tu. imperativo é de repente se lembrar de tudo. quantas vezes for preciso. e esquecer do que não serve. quantas vezes for preciso. quantas forem as vezes. precisas. esquecer é preciso. viver não é preciso.
e então?
sábado, 8 de março de 2008
sexta-feira, 7 de março de 2008
rufoso
um dia você acorda e... pronto! tá tudo decidido. embora nada, fato, ponto.
o susto do dia traz uma sensação de tilt final. mais fichas, então.
então você inventa palavras pra tentar explicar o que quer se dizer.
um troispes, uma cantulatíce, uma sospem, uns poucos lerátinos.
qualquer canstrufel serve. e aquieta. reserve para depois.
espera, é só mais um dia? azeite, manteiga e cogumelos na frigideira.
tudo, tudo, tudo se pode fazer na frigideira. até o jogo dos barulhinhos.
sim, é bem barulhenta a manhã. de passarinhos histéricos, ainda que passarinhos.
meio que um pouco inadequado para o que devia ser harmonioso.
mas mesmo assim, pronto. tá decidido. embora nada, tudo, ponto.
o próximo parágrafo deve dizer menos ainda, mas vai existir mesmo assim.
faça um esforço, meu deus, ainda que não lhe diga respeito, e tente relaxar.
simplesmente pronto. cheiros e sons e fome.
servimos então a mesa e desligamos a tv.
é uma tentativa, afinal, de diminuir os ruídos.
e é bom que seja hoje, agora, nesse dia de acordar. e decisão.
decidido por si. por mim. por nós. por todos. pelo mundo.
suficiente. suficientes. (?) pode me deixar ir agora.
então um dia você acorda e... pronto. tá tudo decidido.
vai andando, caminhando. não há distância. sem susto. susto.
se bem que o treino de segunda-feira pode ser uma ótima idéia.
a decisão pelo passo desafiador pode ser, de fato, o ponto.
astenfas, nertuci, lobelise, camercstério, sofolização, brássulo, zincárdia.
e deixa um pouco de tolice pra mais tarde.
deixa para quando ele chegar outra vez.
no novo dia de acordar, de susto da manhã harmoniosa, de-fato-ponto.
hm? hmm.
um dia você acorda e... pronto! tá tudo decidido. embora nada, fato, ponto.
o susto do dia traz uma sensação de tilt final. mais fichas, então.
então você inventa palavras pra tentar explicar o que quer se dizer.
um troispes, uma cantulatíce, uma sospem, uns poucos lerátinos.
qualquer canstrufel serve. e aquieta. reserve para depois.
espera, é só mais um dia? azeite, manteiga e cogumelos na frigideira.
tudo, tudo, tudo se pode fazer na frigideira. até o jogo dos barulhinhos.
sim, é bem barulhenta a manhã. de passarinhos histéricos, ainda que passarinhos.
meio que um pouco inadequado para o que devia ser harmonioso.
mas mesmo assim, pronto. tá decidido. embora nada, tudo, ponto.
o próximo parágrafo deve dizer menos ainda, mas vai existir mesmo assim.
faça um esforço, meu deus, ainda que não lhe diga respeito, e tente relaxar.
simplesmente pronto. cheiros e sons e fome.
servimos então a mesa e desligamos a tv.
é uma tentativa, afinal, de diminuir os ruídos.
e é bom que seja hoje, agora, nesse dia de acordar. e decisão.
decidido por si. por mim. por nós. por todos. pelo mundo.
suficiente. suficientes. (?) pode me deixar ir agora.
então um dia você acorda e... pronto. tá tudo decidido.
vai andando, caminhando. não há distância. sem susto. susto.
se bem que o treino de segunda-feira pode ser uma ótima idéia.
a decisão pelo passo desafiador pode ser, de fato, o ponto.
astenfas, nertuci, lobelise, camercstério, sofolização, brássulo, zincárdia.
e deixa um pouco de tolice pra mais tarde.
deixa para quando ele chegar outra vez.
no novo dia de acordar, de susto da manhã harmoniosa, de-fato-ponto.
hm? hmm.
quinta-feira, 6 de março de 2008
Take a look at me now
How can I just let you walk away, just let you leave without a trace
When I stand here taking every breath with you
You're the only one who really knew me at all
How can you just walk away from me when all I can do is watch you leave
'Cause we've shared the laughter and the pain and even shared the tears
You're the only one who really knew me at all
So take a look at me now, there's just an empty space
And there's nothing left here to remind me, just the memory of your face
Take a look at me now, there's just an empty space
And you coming back to me is against the odds and that's what I've got to face
I wish I could just make you turn around, turn around to see me cry
There's so much I need to say to you, so many reasons why
You're the only one who really knew me at all
So take a look at me now, 'cause there's just an empty space
But to wait for you is all I can do and that's what I've gotta face
Take a good look at me now, 'cause I'll still be standing here
And you coming back to me is against all odds It's the chance I've gotta take
Just take a look at me now
Take a look at me now, Phill Collins
How can I just let you walk away, just let you leave without a trace
When I stand here taking every breath with you
You're the only one who really knew me at all
How can you just walk away from me when all I can do is watch you leave
'Cause we've shared the laughter and the pain and even shared the tears
You're the only one who really knew me at all
So take a look at me now, there's just an empty space
And there's nothing left here to remind me, just the memory of your face
Take a look at me now, there's just an empty space
And you coming back to me is against the odds and that's what I've got to face
I wish I could just make you turn around, turn around to see me cry
There's so much I need to say to you, so many reasons why
You're the only one who really knew me at all
So take a look at me now, 'cause there's just an empty space
But to wait for you is all I can do and that's what I've gotta face
Take a good look at me now, 'cause I'll still be standing here
And you coming back to me is against all odds It's the chance I've gotta take
Just take a look at me now
Take a look at me now, Phill Collins
I'd Rather
I thought sometime alone was what we really needed
you said this time would hurt more than it helps but I couldn't see that
I thought it was the end of a beautiful story and so I left the one I loved at home to be alone
and I tried to find out if this one thing is true that I'm nothing without you
I know better now I've had a change of heart
I'd rather have bad times with you, than good times with someone else
I'd rather be beside you in a storm, than safe and warm by myself
I'd rather have hard times together, than to have it easy apart
I'd rather have the one who holds my heart
And then I met someone and thought she could replace you
we got a long just fine but we wasted time because she was not you
we had a lot of fun though we knew we were faking, love was not impressed without connection
they were all lies, so I'm here cause I found this one thing is true: that I'm nothing without you
I know better now and I've had a change of heart
I'd rather have bad times with you, than good times with someone else
I'd rather be beside you in a storm, than safe and warm by myself
I'd rather have hard times together, than to have it easy apart
I'd rather have the one who holds my heart
I'd rather, Luther Vandross
I thought sometime alone was what we really needed
you said this time would hurt more than it helps but I couldn't see that
I thought it was the end of a beautiful story and so I left the one I loved at home to be alone
and I tried to find out if this one thing is true that I'm nothing without you
I know better now I've had a change of heart
I'd rather have bad times with you, than good times with someone else
I'd rather be beside you in a storm, than safe and warm by myself
I'd rather have hard times together, than to have it easy apart
I'd rather have the one who holds my heart
And then I met someone and thought she could replace you
we got a long just fine but we wasted time because she was not you
we had a lot of fun though we knew we were faking, love was not impressed without connection
they were all lies, so I'm here cause I found this one thing is true: that I'm nothing without you
I know better now and I've had a change of heart
I'd rather have bad times with you, than good times with someone else
I'd rather be beside you in a storm, than safe and warm by myself
I'd rather have hard times together, than to have it easy apart
I'd rather have the one who holds my heart
I'd rather, Luther Vandross
quarta-feira, 5 de março de 2008
Hello
I've been alone with you inside my mind
And in my dreams I've kissed your lips a thousand times
I sometimes see you pass outside my door
Hello, is it me you're looking for?
I can see it in your eyes
I can see it in your smile
You're all I've ever wanted, (and) my arms are open wide
'Cause you know just what to say
And you know just what to do
And I want to tell you so much, I love you
I long to see the sunlight in your hair
And tell you time and time again how much I care
Sometimes I feel my heart will overflow
Hello, I've just got to let you know
'Cause I wonder where you are
And I wonder what you do
Are you somewhere feeling lonely, or is someone loving you?
Tell me how to win your heart
For I haven't got a clue
But let me start by saying... I love you
Hello, Lionel Richie
I've been alone with you inside my mind
And in my dreams I've kissed your lips a thousand times
I sometimes see you pass outside my door
Hello, is it me you're looking for?
I can see it in your eyes
I can see it in your smile
You're all I've ever wanted, (and) my arms are open wide
'Cause you know just what to say
And you know just what to do
And I want to tell you so much, I love you
I long to see the sunlight in your hair
And tell you time and time again how much I care
Sometimes I feel my heart will overflow
Hello, I've just got to let you know
'Cause I wonder where you are
And I wonder what you do
Are you somewhere feeling lonely, or is someone loving you?
Tell me how to win your heart
For I haven't got a clue
But let me start by saying... I love you
Hello, Lionel Richie
terça-feira, 4 de março de 2008
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
American Idol
You walked into the party like you were walking onto a yacht
your hat strategically dipped below one eye your scarf it was apricot
you had one eye in the mirror as you watched yourself gavotte
and all the girls dreamed that they'd be your partner they'd be your partner and
you're so vain you probably think this song is about you
you're so vain I bet you think this song is about you
don't you, don't you, don't you
well you had me several years ago when I was still quite naive
well you said that we made such a pretty pair and that you would never leave
but you gave away the things you loved and one of them was me
I had some dreams they were clouds in my coffee clouds in my coffee and
you're so vain you probably think this song is about you you're so vain
I bet you think this song is about you
don't you, don't you, don't you
I had some dreams they were clouds in my coffee
clouds in my coffee...
You're So Vain, Carly Simon
You walked into the party like you were walking onto a yacht
your hat strategically dipped below one eye your scarf it was apricot
you had one eye in the mirror as you watched yourself gavotte
and all the girls dreamed that they'd be your partner they'd be your partner and
you're so vain you probably think this song is about you
you're so vain I bet you think this song is about you
don't you, don't you, don't you
well you had me several years ago when I was still quite naive
well you said that we made such a pretty pair and that you would never leave
but you gave away the things you loved and one of them was me
I had some dreams they were clouds in my coffee clouds in my coffee and
you're so vain you probably think this song is about you you're so vain
I bet you think this song is about you
don't you, don't you, don't you
I had some dreams they were clouds in my coffee
clouds in my coffee...
You're So Vain, Carly Simon
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Juno
- I'm losing my faith in humanity.
- Think you can narrow it down for me?
- I guess I wonder sometimes if people ever stay together for good.
- You mean like couples?
- Yeah, like people in love. (...) I just need to know if it's possible for two people to stay happy together forever, or at least for a few years.
- It's not easy, that's for sure. (...) In my opinion, the best thing you can do is find a person who loves you for exactly what you are. Good mood, bad mood, ugly, pretty, handsome, what-have-you, the right person will still think the sun shines out your ass. That's the kind of person that's worth sticking with.
- I'm losing my faith in humanity.
- Think you can narrow it down for me?
- I guess I wonder sometimes if people ever stay together for good.
- You mean like couples?
- Yeah, like people in love. (...) I just need to know if it's possible for two people to stay happy together forever, or at least for a few years.
- It's not easy, that's for sure. (...) In my opinion, the best thing you can do is find a person who loves you for exactly what you are. Good mood, bad mood, ugly, pretty, handsome, what-have-you, the right person will still think the sun shines out your ass. That's the kind of person that's worth sticking with.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Me larga! (e me abraça!)
Como escreve Rufo: "Prender-se, desprender-se, voltar, sair novamente, encontrar, abandonar... Toda a nossa vida segue esse movimento permanente". E relacionar-se significa encontrar um mágico equilíbrio nesse movimento: "Cada qual precisa do outro para se construir e se conquistar, para se tranqüilizar às vezes, e para compartilhar momentos, idéias e desejos. O outro é precioso na medida em que representa uma abertura para o mundo". (...) Talvez a gente se apaixone e se separe sobretudo conforme o ritmo do antigo e inesgotável conflito interno entre nossas aspirações de navegador solitário (a imagem é de Rufo) e nossa nostalgia de uma fusão na qual, enfim, poderíamos descansar de vez.
Contardo Calligaris, na Ilustrada
Como escreve Rufo: "Prender-se, desprender-se, voltar, sair novamente, encontrar, abandonar... Toda a nossa vida segue esse movimento permanente". E relacionar-se significa encontrar um mágico equilíbrio nesse movimento: "Cada qual precisa do outro para se construir e se conquistar, para se tranqüilizar às vezes, e para compartilhar momentos, idéias e desejos. O outro é precioso na medida em que representa uma abertura para o mundo". (...) Talvez a gente se apaixone e se separe sobretudo conforme o ritmo do antigo e inesgotável conflito interno entre nossas aspirações de navegador solitário (a imagem é de Rufo) e nossa nostalgia de uma fusão na qual, enfim, poderíamos descansar de vez.
Contardo Calligaris, na Ilustrada
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Once
Part of me Has Died And won't return And part of me Wants to hide The part that's burned
Once, once Knew how to talk to you Once, once But not anymore
Hear the sirens call me home Hear the sirens call me home
Hear the sirens call me home Hear the sirens call me home
Part of me Has vied To watch it burn And the heart of me Has tried But look what it's become
Once, once I knew how to look for you Once, once But that was before
Once, once I would have laid down to died for you Once, once But not anymore
Hear the sirens call me home Hear the sirens call me home
Hear the sirens call me home Hear the sirens call me home
I'm scratching at the surface now And I'm trying hard to work it out
So much has gone misunderstood This mystery only leads to doubt And I didn't understand
When you reached out to take my hand And if you have something to say You'd better say it now
Cause this is what you've waited for Your chance to even up the score
And as these shadows fall on me now I will somehow
Cause I'm picking up a message Lord And I'm closer than I've ever been before
So if you have something to say Say it to me now Say it to me now Say it to me now
I don't know you But I want you All the more for that Words fall through me
And always fool me And I can't react
And games that never amount To more than they're meant Will play themselves out
Take this sinking boat and point it home We've still got time
Raise your hopeful voice you have a choice You've made it now
Falling slowly, eyes that know me And I can't go back
Moods that take me and erase me And I'm painted black
You have suffered enough And warred with yourself It's time that you won
Take this sinking boat and point it home We've still got time
Raise your hopeful voice you had a choice You've made it now
Falling slowly sing your melody I'll sing along
sábado, 23 de fevereiro de 2008
No meio do meu caminho
No meio do meu caminho tinha um pato
tinha um pato no meio do meu caminho
tinha um pato
no meio do meu caminho tinha um pato.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
Nunca me esquecerei que no meio do meu caminho
tinha um pato
tinha um pato no meio do meu caminho
no meio do meu caminho tinha uma pato.
No meio do meu caminho tinha um pato
tinha um pato no meio do meu caminho
tinha um pato
no meio do meu caminho tinha um pato.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
Nunca me esquecerei que no meio do meu caminho
tinha um pato
tinha um pato no meio do meu caminho
no meio do meu caminho tinha uma pato.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Oh, porque metade de mim é amor e a outra metade também
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
(O.M.)
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
domingo, 17 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
um primeiro fio de sangue negro
Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passou enjubado e tranqüilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e os dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.
Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir - diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas-, sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraía em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.
Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho - a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente: "Oh não, não isso", pensou. E enquanto fugia, disse: "Deus, me ensine somente a odiar."
"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre os olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro da poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. "Oh, Deus, quem será meu par neste mundo?"
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no banco da montanha-russa.
E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco parecia estar sentada numa igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor - amor, amor, não o amor! -, onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava do nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre - o grito das namoradas! -, seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, "faziam dela o que queriam", a grande ofensa - o grito das namoradas! -, a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? Os minutos a um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a com um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-a como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também é súbito. Estavam de volta à terra, a maquinaria de novo inteiramente parada.
Pálida, jogada fora de uma igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e onde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó-de-arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo do meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se tivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido.
Só isso? Só isso. Da violência, só isso.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati, que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.
A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa a vontade de matar - seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas vontade atormentada de ódio como um desejo, à promessa do desabrochamento cruel, um tormento como se amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ler o seu próprio ódio? O ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói... oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida - deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se -, enjaulada olhou em torno de si e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? Como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde. Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.
Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente a grande cabeça mais larga que o resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que, a distância, a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque nas trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido.
A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.
O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo como dorso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranqüila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida naquela coisa branca e remota onde estivera.
E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah!, disse provocando-o. Ah!, disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah!, instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do dorso mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah!, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro.
O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo. Ficou parada, ouvindo pingar como uma grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo se voltou para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e, à distância, encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente a frente. Ela não olhou o cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.
O Búfalo, Clarice Lispector
Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passou enjubado e tranqüilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e os dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.
Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir - diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas-, sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraía em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.
Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho - a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente: "Oh não, não isso", pensou. E enquanto fugia, disse: "Deus, me ensine somente a odiar."
"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre os olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro da poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. "Oh, Deus, quem será meu par neste mundo?"
Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no banco da montanha-russa.
E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco parecia estar sentada numa igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor - amor, amor, não o amor! -, onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.
Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava do nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre - o grito das namoradas! -, seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, "faziam dela o que queriam", a grande ofensa - o grito das namoradas! -, a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? Os minutos a um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a com um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-a como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.
E agora este silêncio também é súbito. Estavam de volta à terra, a maquinaria de novo inteiramente parada.
Pálida, jogada fora de uma igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e onde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó-de-arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo do meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se tivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido.
Só isso? Só isso. Da violência, só isso.
Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati, que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.
A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.
Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa a vontade de matar - seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas vontade atormentada de ódio como um desejo, à promessa do desabrochamento cruel, um tormento como se amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ler o seu próprio ódio? O ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói... oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida - deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se -, enjaulada olhou em torno de si e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.
Recomeçou então a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? Como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.
Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde. Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.
Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente a grande cabeça mais larga que o resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que, a distância, a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.
A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.
E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque nas trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido.
A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.
E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.
Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.
O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.
O búfalo como dorso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranqüila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida naquela coisa branca e remota onde estivera.
E de onde olhou de novo o búfalo.
O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah!, disse provocando-o. Ah!, disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah!, instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.
Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do dorso mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.
Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.
Ah!, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro.
O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo. Ficou parada, ouvindo pingar como uma grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo se voltou para ela.
O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e, à distância, encarou-a.
Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.
Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.
Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente a frente. Ela não olhou o cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.
E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.
O Búfalo, Clarice Lispector
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
medo
por que apago o que escrevo?
para evitar ao que não me atrevo?
para fugir do apego?
ou porque cometi um erro?
...
minúscula

...
intervalo
é como um botão que a gente simplesmente desliga
quem tem, aproveita
quem não tem, se arrebenta
é como uma bateria que a gente deixa descarregar
quem consegue, recarrega
quem não consegue, sossega
é como uma ampulheta que a gente vira e revira
quem tem companhia, ri enquanto espera
quem não tem, se aterra
é como uma caixa de bombons que acaba
quem consegue, logo compra outra
quem não consegue, poupa
é como a água que seca sob o sol
quem tem sede, bebe o que escorre
quem não tem, morre
é como restos que a gente deixa pra trás
quem consegue, dá as costas e esquece
quem não consegue, padece
é como quando a gente é roubada
quem tem colo, ignora
quem não tem, chora
é como oferecer a outra face
quem consegue, reza
quem não consegue, despreza
é como fazer poesia ou amor
quem tem palavras, fala
quem não tem, se cala.
por que apago o que escrevo?
para evitar ao que não me atrevo?
para fugir do apego?
ou porque cometi um erro?
...
minúscula

...
intervalo
é como um botão que a gente simplesmente desliga
quem tem, aproveita
quem não tem, se arrebenta
é como uma bateria que a gente deixa descarregar
quem consegue, recarrega
quem não consegue, sossega
é como uma ampulheta que a gente vira e revira
quem tem companhia, ri enquanto espera
quem não tem, se aterra
é como uma caixa de bombons que acaba
quem consegue, logo compra outra
quem não consegue, poupa
é como a água que seca sob o sol
quem tem sede, bebe o que escorre
quem não tem, morre
é como restos que a gente deixa pra trás
quem consegue, dá as costas e esquece
quem não consegue, padece
é como quando a gente é roubada
quem tem colo, ignora
quem não tem, chora
é como oferecer a outra face
quem consegue, reza
quem não consegue, despreza
é como fazer poesia ou amor
quem tem palavras, fala
quem não tem, se cala.
domingo, 10 de fevereiro de 2008
buraco
eu lembro que só podia ouvir a minha própria respiração.
sentia os carinhos
as flores
os cheiros.
via através das pálpebras
as luzes
as gentes
os choros.
mas só podia escutar a minha respiração.
alta, pausada, tranqüila.
era o som que eu tinha da despedida de mim mesma.
a respiração alta e tranqüila do mergulho profundo.
colocaram a tampa.
depois de um arrepio,
passei a ouvir também os passos.
muitos, compassados e lentos.
quase a me ninar
num balanço sem volta.
fim dos passos.
silêncio.
um longo silêncio inacabado.
e a chuva de terra.
o som da chuva de terra
aumentando em tempestade
e silenciando em si todos os outros sons.
súbito, o nada.
pausa.
vácuo.
limbo.
breu.
aqui, nem mesmo a lembrança do que acabei de contar.
nem mesmo a lembrança de haver lembranças.
nada.
pausa.
vácuo.
limbo.
breu.
breu.
breu.
eu.
eu lembro que só podia ouvir a minha própria respiração.
sentia os carinhos
as flores
os cheiros.
via através das pálpebras
as luzes
as gentes
os choros.
mas só podia escutar a minha respiração.
alta, pausada, tranqüila.
era o som que eu tinha da despedida de mim mesma.
a respiração alta e tranqüila do mergulho profundo.
colocaram a tampa.
depois de um arrepio,
passei a ouvir também os passos.
muitos, compassados e lentos.
quase a me ninar
num balanço sem volta.
fim dos passos.
silêncio.
um longo silêncio inacabado.
e a chuva de terra.
o som da chuva de terra
aumentando em tempestade
e silenciando em si todos os outros sons.
súbito, o nada.
pausa.
vácuo.
limbo.
breu.
aqui, nem mesmo a lembrança do que acabei de contar.
nem mesmo a lembrança de haver lembranças.
nada.
pausa.
vácuo.
limbo.
breu.
breu.
breu.
eu.
sábado, 9 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
remédio
ela não deixou bilhete.
mas queria ir faz tempo,
todo mundo sabia.
tentaram fazê-la esquecer,
disfarçar a idéia,
ocupar-lhe o pensamento,
os dias, o tempo.
mas quando a gente quer ir,
não tem enganação que dê jeito,
não tem argumento,
não tem negociação.
ela não deixou bilhete
porque estava atrasada demais.
foi recebida ao som de aleluia.
a reserva era para anos atrás.
e, enfim, ela viu com olhos brilhantes:
não era pior, não.
devia ter ido antes.
ela não deixou bilhete.
mas queria ir faz tempo,
todo mundo sabia.
tentaram fazê-la esquecer,
disfarçar a idéia,
ocupar-lhe o pensamento,
os dias, o tempo.
mas quando a gente quer ir,
não tem enganação que dê jeito,
não tem argumento,
não tem negociação.
ela não deixou bilhete
porque estava atrasada demais.
foi recebida ao som de aleluia.
a reserva era para anos atrás.
e, enfim, ela viu com olhos brilhantes:
não era pior, não.
devia ter ido antes.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
o 7 bíblico
É a soma de 4 (número da totalidade) + 3 (número da unidade e da Trindade).
Por isso é o número perfeito, indica o máximo da perfeição;
indica séries completas como no Apocalipse: 7 Cartas, 7 Selos, 7 cabeças;
o Cordeiro imolado recebe 7 dons;
o sábado é o sétimo dia;
Deus fez a Criação em 7 dias;
cada sétimo ano é sabático (descanso para a terra e libertação dos oprimidos);
e depois de 7 vezes, 7 anos, vem o Jubileu;
É a soma de 4 (número da totalidade) + 3 (número da unidade e da Trindade).
Por isso é o número perfeito, indica o máximo da perfeição;
indica séries completas como no Apocalipse: 7 Cartas, 7 Selos, 7 cabeças;
o Cordeiro imolado recebe 7 dons;
o sábado é o sétimo dia;
Deus fez a Criação em 7 dias;
cada sétimo ano é sabático (descanso para a terra e libertação dos oprimidos);
e depois de 7 vezes, 7 anos, vem o Jubileu;
é a duração limitada das perseguições;
é o tempo controlado por Deus.
Não se deve perdoar 7 vezes, mas 70 vezes 7.
(Mt 18,22)
(mas tem coisa que dói, viu...)
Não se deve perdoar 7 vezes, mas 70 vezes 7.
(Mt 18,22)
(mas tem coisa que dói, viu...)
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
...
Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar - uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer desabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras.
de Os desastres de Sofia, Clarice Lispector
Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar - uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer desabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras.
de Os desastres de Sofia, Clarice Lispector
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
segunda-feira de carnaval
o bate-estaca
que era fora
agora é dentro
Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
Já que você não me quer mais
Passei vinte e nove meses no navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com retorno de Saturno
Decidi começar a viver
Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão
E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez
Vinte e Nove, Renato Russo
o bate-estaca
que era fora
agora é dentro
Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
Já que você não me quer mais
Passei vinte e nove meses no navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com retorno de Saturno
Decidi começar a viver
Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão
E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez
Vinte e Nove, Renato Russo
domingo, 3 de fevereiro de 2008
sábado, 2 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
carnavão
a fantasia de amar é vã, meu irmão
é um engano
um brinquedo humano
uma fabricação
a fantasia de amar é um não
é uma tentação que mata
uma barata
uma migalha de pão
a gente costura a fantasia à mão
rasga o dedo, dá o sangue
pinta circo, folclore, bang-bang
prega cada botão
no fim do desfile, é fantasia no chão
é carregar um rei momo no colo
a bateria estourando os miolos
a pior pontuação
a fantasia de amar não tem perdão
são anos perdidos
carnavais esquecidos
samba triste, e solidão
a fantasia de amar é vã, meu irmão
é um engano
um brinquedo humano
uma fabricação
a fantasia de amar é um não
é uma tentação que mata
uma barata
uma migalha de pão
a gente costura a fantasia à mão
rasga o dedo, dá o sangue
pinta circo, folclore, bang-bang
prega cada botão
no fim do desfile, é fantasia no chão
é carregar um rei momo no colo
a bateria estourando os miolos
a pior pontuação
a fantasia de amar não tem perdão
são anos perdidos
carnavais esquecidos
samba triste, e solidão
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Meet me tomorrow night, or any day you want
Time takes care of the wound, so I can believe.
You had so much to give, you thought I couldn't see.
Gifts for boot heels to crush, promises deceived.
I had to send it away to bring us back again.
Your eyes and bodie brighten silent waters, deep.
Your precious dream in the other room, asleep.
A kiss goodnight from every stranger that I meet.
I had to send it away to bring us back again.
Morning theft. Unpretending left. Ungraceful.
True self is what brought you here to me.
A place where we can accept this love.
Friendship battered down by useless history,
Unexamined failure.
What am I still to you?
Some thief who stole from you?
Or some fool drama queen whose chances were few?
That brings us to who we need,
A place where we can save
A heart that beats as both siphon and reservoir.
You’re a woman, I’m a calf.
You’re a window, I’m a knife.
We come together making chance into starlight.
Meet me tomorrow night, or any day you want.
I have no right to wonder just how, or when.
You know the meaning fits. There’s no relief in this.
I miss my beautiful friend.
You had so much to give, you thought I couldn't see.
Gifts for boot heels to crush, promises deceived.
I had to send it away to bring us back again.
Your eyes and bodie brighten silent waters, deep.
Your precious dream in the other room, asleep.
A kiss goodnight from every stranger that I meet.
I had to send it away to bring us back again.
Morning theft. Unpretending left. Ungraceful.
True self is what brought you here to me.
A place where we can accept this love.
Friendship battered down by useless history,
Unexamined failure.
What am I still to you?
Some thief who stole from you?
Or some fool drama queen whose chances were few?
That brings us to who we need,
A place where we can save
A heart that beats as both siphon and reservoir.
You’re a woman, I’m a calf.
You’re a window, I’m a knife.
We come together making chance into starlight.
Meet me tomorrow night, or any day you want.
I have no right to wonder just how, or when.
You know the meaning fits. There’s no relief in this.
I miss my beautiful friend.
I had to send it away to bring her back again.
Morning Theft, Jeff Buckley
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
domingo, 27 de janeiro de 2008
sábado, 26 de janeiro de 2008
Heroes
Se eu pudesse voar, seria pros teus braços
Se eu pudesse parar o tempo, seria nos teus abraços
Se eu pudesse ler pensamentos, faria as tuas vontades
Se eu pudesse pintar o futuro, teria possibilidades
Se eu pudesse atravessar paredes, te surpreenderia com flores
Se eu pudesse curar, te daria uma vida sem dores
Se eu tivesse uma força absurda, te salvaria de todo perigo
Se eu fosse imortal, queria te ter comigo
Se eu pudesse voar, seria pros teus braços
Se eu pudesse parar o tempo, seria nos teus abraços
Se eu pudesse ler pensamentos, faria as tuas vontades
Se eu pudesse pintar o futuro, teria possibilidades
Se eu pudesse atravessar paredes, te surpreenderia com flores
Se eu pudesse curar, te daria uma vida sem dores
Se eu tivesse uma força absurda, te salvaria de todo perigo
Se eu fosse imortal, queria te ter comigo
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Insônia
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Fragmentos de A Noite Terrível, de Álvaro de Campos (FP)
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Fragmentos de A Noite Terrível, de Álvaro de Campos (FP)
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
domingo, 20 de janeiro de 2008
sábado, 19 de janeiro de 2008
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Simone, Jean-Paul, eu e meu amor
Prometeram contar "tudo" um ao outro, nos mínimos detalhes. Transformar a vida em narrativa era talvez seu prazer mais voluptuoso. "Para o acontecimento mais banal virar uma aventura, é preciso (...) começar a contá-lo." Era impossível dizer o que era mais satisfatório: a sensação voyeurística de ouvir sobre a vida um do outro ou o conforto gostoso de narrar a própria.
E sua paixão por compartilhar os mínimos detalhes de seu dia-a-dia - o cheiro da chuva, a cor dos faróis no escuro, uma conversa divertida que entreouviram num trem - era francamente cativante.
Tête-à-Tête, Hazel Rowley
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
um discurso sobre o inevitável acontecimento
A data foi marcada, senhores. Alguém há de me trazer os detalhes, os horrores. Milhares de pequenas mortes, de talheres, e sortes. As flores, as cores, o altar e os odores. Alguém há de me esfaquear as lembranças. Há de haver danças, camarões e amigos antigos. Milhões de seguranças e nenhum perigo. As ameaças foram guardadas ou podem nunca ter existido. Pode ser um castigo. Pode nunca ter sido. Alguém há de me chamar a atenção. Mas, não, que não me façam isso. É um pequeno capricho que quero levar. Alguma informação há de chegar, e alguma descrença, alguma questão. Mas não me perguntem o que não sei responder. Não me doam o que já não deve doer. Saberemos, se algo se houver de saber.
Há noite, mas há de amanhecer. Todo dia.
...
A data foi marcada, senhores. Alguém há de me trazer os detalhes, os horrores. Milhares de pequenas mortes, de talheres, e sortes. As flores, as cores, o altar e os odores. Alguém há de me esfaquear as lembranças. Há de haver danças, camarões e amigos antigos. Milhões de seguranças e nenhum perigo. As ameaças foram guardadas ou podem nunca ter existido. Pode ser um castigo. Pode nunca ter sido. Alguém há de me chamar a atenção. Mas, não, que não me façam isso. É um pequeno capricho que quero levar. Alguma informação há de chegar, e alguma descrença, alguma questão. Mas não me perguntem o que não sei responder. Não me doam o que já não deve doer. Saberemos, se algo se houver de saber.
Há noite, mas há de amanhecer. Todo dia.
...
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
duo
The only real voyage of discovery
consists not in seeking new landscapes,
but in having new eyes
Marcel Proust
For one human being to love another;
that is perhaps the most difficult of all our tasks,
the ultimate, the last test and proof,
the work for which all other work is but preparation.
Rainer Maria Rilke
Rainer Maria Rilke
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
domingo, 13 de janeiro de 2008
sábado, 12 de janeiro de 2008
o oito deitado
por que é que a gente registra a data da dor?
pra ela não passar?
ou porque já passou?
por que é que a gente registra a dor?
pra ver se ela passa?
ou porque nada passou (a gente, a data, a dor, o registro...) ?
por que é que a gente insiste em registrar?
porque é amor?
ou é a-dor(-no) d'a-mor-te amo-r?
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo
Agora
Há tanta vida lá fora
E aqui dentro sempre
Como uma onda no mar
Lulu Santos
OU NÃO.
por que é que a gente registra a data da dor?
pra ela não passar?
ou porque já passou?
por que é que a gente registra a dor?
pra ver se ela passa?
ou porque nada passou (a gente, a data, a dor, o registro...) ?
por que é que a gente insiste em registrar?
porque é amor?
ou é a-dor(-no) d'a-mor-te amo-r?
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo
Agora
Há tanta vida lá fora
E aqui dentro sempre
Como uma onda no mar
Lulu Santos
OU NÃO.
sábado, 29 de dezembro de 2007
Simples
E como se a gente, simplesmente, já não pensasse o suficiente sobre tudo, o pensamento quer se expor. Só que tudo já foi dito, então vira uma coisa que não serve mais pra nada. A não ser para aliviar a cabeça do pensante. E alguém escreve, e alguém lê, ou não, e não importa. É que é preciso tirar isso de dentro de cabeça. Já dizia Raquel, a de Queiroz, eu nem gosto de escrever, mas preciso tirar essa coisa da minha cabeça. Fica doendo, querendo sair.
Desta vez eu acho que não vou saber dizer o que é. Mas tem tamanho e forma porque eu sinto alojado no cérebro. Quer sair, mas eu não sei. É mais de uma coisa. Eu as sei, mas... Vou ficar aqui falando falando e não vou conseguir dizer nada. Tempo perdido. Puro.
São umas coisas misturadas que não querem ficar lá dentro. Nem eu quero que fiquem, me atazanando. Mas faz o quê? Tem um pouco de querer saber se naquele dia foi legal, se eu estive lá passeando no dia seguinte, se vai tocar de novo aquele tango. Tem um pouco do que aquele cara contou, da pergunta, da resposta estranha, da dúvida. Tem um pouco também daquela novidade na foto que passamos na tv. Um rosto sem história. E tem ainda dessa lembrança, dessa criança, que eu nem sabia que tinha idade pra lembrar de ninguém. Mas, tia... se você disser que EU estou aqui, pode ajudar, cê não acha? Ah, e tem essa sensação do tempo, que passa e fim.
(Continua...)
E como se a gente, simplesmente, já não pensasse o suficiente sobre tudo, o pensamento quer se expor. Só que tudo já foi dito, então vira uma coisa que não serve mais pra nada. A não ser para aliviar a cabeça do pensante. E alguém escreve, e alguém lê, ou não, e não importa. É que é preciso tirar isso de dentro de cabeça. Já dizia Raquel, a de Queiroz, eu nem gosto de escrever, mas preciso tirar essa coisa da minha cabeça. Fica doendo, querendo sair.
Desta vez eu acho que não vou saber dizer o que é. Mas tem tamanho e forma porque eu sinto alojado no cérebro. Quer sair, mas eu não sei. É mais de uma coisa. Eu as sei, mas... Vou ficar aqui falando falando e não vou conseguir dizer nada. Tempo perdido. Puro.
São umas coisas misturadas que não querem ficar lá dentro. Nem eu quero que fiquem, me atazanando. Mas faz o quê? Tem um pouco de querer saber se naquele dia foi legal, se eu estive lá passeando no dia seguinte, se vai tocar de novo aquele tango. Tem um pouco do que aquele cara contou, da pergunta, da resposta estranha, da dúvida. Tem um pouco também daquela novidade na foto que passamos na tv. Um rosto sem história. E tem ainda dessa lembrança, dessa criança, que eu nem sabia que tinha idade pra lembrar de ninguém. Mas, tia... se você disser que EU estou aqui, pode ajudar, cê não acha? Ah, e tem essa sensação do tempo, que passa e fim.
(Continua...)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
o salto
(antonio prata)
A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato -- pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente -- você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.
Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas -- mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz.
Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não?
Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte -- quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo -- o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão --, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.
(antonio prata)
A gente não tem como saber se vai dar certo. Talvez, lá adiante, haja uma mesa num restaurante, onde você mexerá o suco com o canudo, enquanto eu quebro uns palitos sobre o prato -- pequenas atividades às quais nos dedicaremos com inútil afinco, adiando o momento de dizer o que deve ser dito. Talvez, lá adiante: mas entre o silêncio que pode estar nos esperando então e o presente -- você acabou de sair da minha casa, seu cheiro ainda surge vez ou outra pelo quarto –, quem sabe não seremos felizes? Entre a concretude do beijo de cinco minutos atrás e a premonição do canudo girando no copo pode caber uma vida inteira. Ou duas.
Passos improvisados de tango e risadas, no corredor do meu apartamento. Uma festa cheia de amigos queridos, celebrando alguma coisa que não saberemos direito o que é, mas que deve ser celebrada. Abraços, borrachudos, a primeira visão de seu necessaire (para que tanto creme, meu Deus?!), respirações ofegantes, camarões, cafunés, banhos de mar – você me agarrando com as pernas e tapando o nariz, enquanto subimos e descemos com as ondas -- mãos dadas no cinema, uma poltrona verde e gorda comprada num antiquário, um tatu bola na grama de um sítio, algumas cidades domesticadas sob nossos pés, postais pregados com tachinhas no mural da cozinha e garrafas vazias num canto da área de serviço. Então, numa manhã, enquanto leio o jornal, te verei escovando os dentes e andando pela casa, dessa maneira aplicada e displicente que você tem de escovar os dentes e andar ao mesmo tempo e saberei, com a grandiosa certeza que surge das pequenas descobertas, que sou feliz.
Talvez, céus nublados e pancadas esparsas nos esperem mais adiante. Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não?
Tudo que sabemos agora é que eu te quero, você me quer e temos todo o tempo e o espaço diante de nossos narizes para fazer disso o melhor que pudermos. Se tivermos cuidado e sorte – sobretudo, talvez, sorte -- quem sabe, dê certo? Não é fácil. Tampouco impossível. E se existe essa centelha quase palpável, essa esperança intensa que chamamos de amor, então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo -- o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão --, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto.
domingo, 23 de dezembro de 2007
Carta para o Papai-Noel
ou Um bilhete colocado em silêncio por baixo da porta do quarto azul
Neste natal, o primeiro sem presente, eu quero lhe contar o que há em mim de contente.
Eu sou criança, por isso ainda acredito em você.
Não, não é isso. Isso foi só um adendo.
Como eu ia dizendo, bem...
Também pode ser que você já saiba.
Pode ser até que não caiba, mas vou lhe dizer mesmo assim.
Eu não fui uma menina ruim. Fui legal durante o ano. Me comportei.
Fui melhor do que antes. E aí é que estão as coisas importantes: eu mudei.
Você sabe, eu já vinha mudando. Mas quero lhe contar que funcionou, que agora tô aproveitando.
E você me ajudou. Assim... porque se a gente não é bom, o Papai-Noel não vem.
E eu sempre quis que você viesse. Mesmo de fininho, do jeito que acontece...
Hoje eu tô vendo certinho, como o seu caminho me guiou.
Seu carinho me ensinou a ser mais branda.
Aprendi que não importa quem comanda, contanto que seja em paz.
Ninguém precisa mandar demais. No final o objetivo é o mesmo, e a gente já sabia:
felicidade todo dia e no ano que vai chegar.
Ai, chega de devagar.
Mas devagar a gente chega e era isso que eu queria contar.
É um pouco triste quando a gente desiste. De acreditar.
Quando a gente se dá conta de que o conto de fada, com a bela amada, termina, assim, sem segunda chance.
Prepara a gente pra um outro romance, mesmo se a gente quisesse que fosse natal todo dia.
Mesmo se a gente quisesse aquela alegria, aquela, que só o Noel traz.
E quando a gente descobre, a fumaça cobre a chaminé. E vem a fase do tantofaz.
Você não acha que é crueldade, que é coisa das bruxas más,
a gente, nessa idade, ser deixada pra trás?? Ter de seguir sozinha, sem colo, sem naninha?
Você não acha, Papai-Noel? Que a nossa vidinha gostosa devia estar sempre lá?
Tá bom, não precisa explicar. Eu já compreendi.
E não quero falar de coisa triste, não tem nada triste aqui.
Comecei contente, lembra? E nem é um jogo, não. É de coração.
Não sei se fiz bem essa emenda, mas, se fosse uma canção...
seria um dia, então.
25 de dezembro, não.
1º de julho.
Bom, eu queria dizer que já joguei fora o entulho, pra você poder entrar.
Mesmo sabendo que esse ano cê não vem. E que talvez nem venha mais, pra variar.
É que eu já sei tudo sobre você e você já sabe tudo de mim,
e parece que a vida é assim: a gente se desinteressa.
Pelo menos não tenho mais pressa. E essa eu devo a você. À sua paciência.
Nem sei se a essência é o natal, o amor, o invisível.
Mas o que me sobra é real: seu efeito em mim foi in-crível.
(Embora eu creia, ainda, em você.)
Tenho vivido a história ao contrário. Quero contar isso pra terminar.
Tenho estado em seu lugar, não é hilário? Quem poderia imaginar?
Não vou tentar descrever situações, pormenorizando os detalhes.
Mas sei que você sabe, aos milhares, o que eu devo estar tentando dizer.
Ficamos assim, por nos entender, inteindeindo.
Caio da chaminé todo dia quase, está doendo pensar que você já caiu tanto.
Mas volto, sem pranto, ao contente. Porque é caindo que se aprende.
(Se arrepende. Se reacende. Se rende. Se vende. Se ofende. Se defende. Depende.)
Estou feliz, embora sem presente.
Com cada cicatriz, com cada semente.
Obrigada, Papai-Noel. Eu só queria lhe contar.
O importante é tocar. Em frente.
(ah, a música... poderia não ser um dia, mas um estado: este! Tocando em frente.)
ou Um bilhete colocado em silêncio por baixo da porta do quarto azul
Neste natal, o primeiro sem presente, eu quero lhe contar o que há em mim de contente.
Eu sou criança, por isso ainda acredito em você.
Não, não é isso. Isso foi só um adendo.
Como eu ia dizendo, bem...
Também pode ser que você já saiba.
Pode ser até que não caiba, mas vou lhe dizer mesmo assim.
Eu não fui uma menina ruim. Fui legal durante o ano. Me comportei.
Fui melhor do que antes. E aí é que estão as coisas importantes: eu mudei.
Você sabe, eu já vinha mudando. Mas quero lhe contar que funcionou, que agora tô aproveitando.
E você me ajudou. Assim... porque se a gente não é bom, o Papai-Noel não vem.
E eu sempre quis que você viesse. Mesmo de fininho, do jeito que acontece...
Hoje eu tô vendo certinho, como o seu caminho me guiou.
Seu carinho me ensinou a ser mais branda.
Aprendi que não importa quem comanda, contanto que seja em paz.
Ninguém precisa mandar demais. No final o objetivo é o mesmo, e a gente já sabia:
felicidade todo dia e no ano que vai chegar.
Ai, chega de devagar.
Mas devagar a gente chega e era isso que eu queria contar.
É um pouco triste quando a gente desiste. De acreditar.
Quando a gente se dá conta de que o conto de fada, com a bela amada, termina, assim, sem segunda chance.
Prepara a gente pra um outro romance, mesmo se a gente quisesse que fosse natal todo dia.
Mesmo se a gente quisesse aquela alegria, aquela, que só o Noel traz.
E quando a gente descobre, a fumaça cobre a chaminé. E vem a fase do tantofaz.
Você não acha que é crueldade, que é coisa das bruxas más,
a gente, nessa idade, ser deixada pra trás?? Ter de seguir sozinha, sem colo, sem naninha?
Você não acha, Papai-Noel? Que a nossa vidinha gostosa devia estar sempre lá?
Tá bom, não precisa explicar. Eu já compreendi.
E não quero falar de coisa triste, não tem nada triste aqui.
Comecei contente, lembra? E nem é um jogo, não. É de coração.
Não sei se fiz bem essa emenda, mas, se fosse uma canção...
seria um dia, então.
25 de dezembro, não.
1º de julho.
Bom, eu queria dizer que já joguei fora o entulho, pra você poder entrar.
Mesmo sabendo que esse ano cê não vem. E que talvez nem venha mais, pra variar.
É que eu já sei tudo sobre você e você já sabe tudo de mim,
e parece que a vida é assim: a gente se desinteressa.
Pelo menos não tenho mais pressa. E essa eu devo a você. À sua paciência.
Nem sei se a essência é o natal, o amor, o invisível.
Mas o que me sobra é real: seu efeito em mim foi in-crível.
(Embora eu creia, ainda, em você.)
Tenho vivido a história ao contrário. Quero contar isso pra terminar.
Tenho estado em seu lugar, não é hilário? Quem poderia imaginar?
Não vou tentar descrever situações, pormenorizando os detalhes.
Mas sei que você sabe, aos milhares, o que eu devo estar tentando dizer.
Ficamos assim, por nos entender, inteindeindo.
Caio da chaminé todo dia quase, está doendo pensar que você já caiu tanto.
Mas volto, sem pranto, ao contente. Porque é caindo que se aprende.
(Se arrepende. Se reacende. Se rende. Se vende. Se ofende. Se defende. Depende.)
Estou feliz, embora sem presente.
Com cada cicatriz, com cada semente.
Obrigada, Papai-Noel. Eu só queria lhe contar.
O importante é tocar. Em frente.
(ah, a música... poderia não ser um dia, mas um estado: este! Tocando em frente.)
sábado, 22 de dezembro de 2007
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
mais micros
CHICLETE BOTÃO FORMADEGELO ALGODÃO
PORCO MEL JEANS PEDRA CHUVA NARIZ PORTA
DESOBEDIENTE
- Alô, doutora Simone?
Ai, sabe, a coroa caiu...
BOTÕES
- Fecha a camisa, engole essa rosa,
chama logo esse elevador e se manda!
FÔRMINHAS
- Quem pegou os peixinhos congelados?
- As crianças colocaram no suco.
SUAVIDADE NO BORDEL
- E aí, essas putas dão tudo?
- Tudo não, mas algo dão.
DESTINO
Ele nasceu rosa, cresceu, engordô.
O pai pegô o facão e... oinc!
ENCANTADORA DE ABELHAS
Tentei imitar Edgie Threadgoode.
Morri melada com 412 picadas.
A PRIMEIRA VEZ
Ainda se usava ser virgem
quando ela tirou a calça Lee.
PEDRA
Chutei e fui.
FALTA DE FÉ
Foram à missa rezar para chover,
mas não levaram o guarda-chuva.
PÂNICO
Taxa de natalidade dispara no Líbano.
Falta ar.
FUGA FRUSTRADA
Quando a morte bateu em minha porta,
fugi pela janela. Eu morava no 18º.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
terça-feira, 30 de outubro de 2007
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
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